2.7.17

Longe eu posso ser ninguém

"Eu preciso mudar de vida. Nada acontece, nada melhora. Eu me sinto preso aqui."
A pessoa faz uma pausa, respira fundo, pensa e completa:
"Eu vou embora daqui."

Já escutei isso de tantos pacientes que nem vou pedir autorização de nenhum em particular para mencionar a fala. Aliás, meus amigos todos falam a mesma coisa depois da segunda cerveja.

Diabos, até meus pais, aos cinquenta e cinco anos de idade, botaram as malas no carro, dirigiram quatro mil quilômetros e saíram do interior do Paraná - quase Argentina - para morar numa cidade pequena no sertão do Ceará em que não ocnheciam ninguém.

Todos temos a fantasia de uma vida nova em um outro lugar.
Por que o desejo de ir pra longe aparece tão forte em momentos de desespero?

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"Navegar é preciso
Viver não é preciso"
(Fernando Pessoa, Caetano Veloso, uns navegadores romanos e ninguém sabe direito mais quem)

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Primeiro porque o movimento literal representa a sensação de movimento na vida.

Quando as frustrações da rotina se empilham alto demais, o impulso de fazer uma grande mudança na vida surge como uma possibilidade de resgate.

Viajar depois de um problema grande é o equivalente a cortar o cabelo depois do fim de um relacionamento: uma grande mudança que mostra pra gente mesmo que pelo menos se está tomando uma atitude para fugir do grande problema que nos persegue.

Alguma coisa está sendo feita. A vida não está sendo desperdiçada.

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"Onde é que eu fui parar?
Aonde é esse aqui?
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe?"
(Arnaldo Antunes)

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Sem contar que estar em um lugar novo é uma chance e tanto pra se assumir uma nova personalidade.

Não que você vá mudar seu nome pra Milady e andar de um lado pro outro carregando uma xícara de chá, mas dá pra mudar o jeito de ser sem criar tanto estranhamento.  Uma mulher que cresceu sob a sombra de uma irmã que chamava toda a atenção para si, por exemplo, em um lugar novo pode experimentar uma nova personalidade.

Agora ela pode ser a pessoa aberta, sorridente e extrovertida que nunca conseguiu antes por esse lugar já estar ocupado.

Na ausência de um ponto de referência, o ponto de referência precisa ser você mesmo. Você é obrigado a crescer.
E cresce, pelo menos até voltar para casa.

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Também tem todo o movimento migratório que acontece por desespero político.

Num cenário como o de hoje, em que cada notícia é um deboche às custas de quem tenta levar uma vida honesta, a vontade de ir para outro lugar bate fundo no instinto de autodefesa.

"Não posso ser um idiota. Esse país é governado por gorilas que querem nos fazer de idiotas. Eu não vou ser idiota aqui. Me recuso a aceitar o deboche."

Na esperança de se sentir tratado com mais respeito, a pessoa se sente no impulso de abandonar tudo o que tem de familiar para desbravar um lugar novo, mesmo que precise começar do zero.

O senso de desafio que aparece no peito de quem se sente menosprezado é um combustível fortíssimo para mudar tudo.

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"Longe eu posso ser ninguém
Pois longe ser ninguém é OK
Novo chão, velha constelação"

(Paula Toller)

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Agora, mais forte do que isso tudo, mudar radicalmente de lugar é uma maneira de jogar fora as expectativas, dos outros e nossas, do que deveríamos ter para nos considerarmos um sucesso.

Longe, você não precisa mais ser tão bem sucedido.
Você não precisa ser o primo que ganha vinte mil por mês se você já é o primo que mora no Canadá. Seja uma expectativa própria ou dos outros, você já garantiu sua grande conquista só por ter ido parar do outro lado do mundo.

Para os outros, você se deu bem porque sempre se imagina a grama mais verde do outro lado, e você vai estar desse outro lado.
Para si, porque a batalha de se firmar num lugar desconhecido, enfrentar a solidão e começar do zero vão te convencer que você fez bastante por si - mesmo que não tenha virado o neurocirurgião foda ou o empresário milionário que sempre pensou que ia ser.

Você vai ter aprendido que as pequenas conquistas também tem valor.

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A distância não resolve tudo para sempre. Depois de se aprender a ser independente e viável num novo território, você vai precisar aprender a exercer a vulnerabilidade outra vez.

Se a distância trouxe a independência, passa a ser hora de encontrar algo que supra outra necessidade vital do ser humano: a proximidade, e é muito mais difícil lidar com a proximidade do que com a distância.

Abandonar o reflexo de se afastar toda vez que se toca em uma parte vulnerável da gente exige um esforço imenso, mas é um passo importantíssimo para conseguir se sentir verdadeiramente em casa em algum lugar - ou em alguém.

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"Se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo
Eu piso mais fundo, corrijo num segundo
Não posso parar."
(Roberto e Erasmo Carlos)

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A bagagem mais pesada que se pode levar ao se mudar para outro canto são as histórias que cada pessoa carrega.

As rejeições, os medos e as ansiedades que já se viveram ficam dobradas e guardadas no peito, prontas para serem utilizadas assim que uma situação parecida acontecer. Quando algo assustador acontece, você precisa lidar com as memórias, com os velhos hábitos, com o problema em si e com a ansiedade de estar em um novo lugar.

"Eu sou uma nova pessoa agora. Eu sou uma nova pessoa agora", você tenta se convencer, enquanto o coração acelera.

Começar uma vida nova em outro lugar é como tentar desenhar numa folha de papel que estava embaixo de outra que já foi desenhada. A folha pode estar em branco, mas tem rabiscos em relevo impossíveis de apagar.

Ainda assim, é um terreno muito mais convidativo para fazer um novo desenho do que a folha anterior.

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Escolher ir para longe é um contrato de alto risco.
Não há garantias de sucesso, voltar é sempre difícil e você pode não se sentir mais em casa nem no lugar de onde veio, nem no lugar para onde foi.

Talvez porque o mundo tenha se tornado sua casa, talvez por nunca ter partido de verdade.

Com sorte, o contrato compensa e as coisas dão certo:
Você vai estar longe de tudo, mas mais perto de si.

Um comentário:

  1. Que texto verdadeiro! Continue sempre escrevendo para que reflexões tão preciosas como essa não sejam perdidas. Parabéns!

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