5.7.17

Não me calo

Passei os últimos meses com um caco de vidro enfiado no pé.

Meu hábito de quebrar copos e meu hábito de caminhar descalço se uniram e, não sei bem quando, comecei a sentir alguma coisa estranha no meu pé.

Toda vez que eu pisava, doía.

Eu não entendia o motivo até fazer a matemática: É claro que eu devia ter pisado em algum caquinho bem pequeno e aí continuei a caminhar como se nada tivesse acontecido.

Como a dor começou pequena, eu não dei bola.

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Passei as semanas seguintes me gabando da minha dor pras pessoas. Alguém comentava "Ai, tô com azia" e eu já respondia na lata:
"E eu, que tô com um caco de vidro há meses no meu pé e nem ao médico fui?".

Eu mesmo me surpreendia com a minha resistência, porque o bicho foi doendo mais e mais e eu não estava nem aí. Ia pra academia, saía correr, andava torto mas usava meu pé doendo como uma medalha de guerra.

Até tentei abrir o pedaço de pele inchada com um estilete pra ver se conseguia tirar o caco, sem sucesso.

Cancela o budismo, gente, porque eu venci a dor humana.
Eu sou muito forte.

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Hoje minha amiga comentou que precisava pegar um atestado e eu aproveitei a companhia para ir ao médico também. Comentei do caco de vidro na triagem com a enfermeira e já recebi uma pulseirinha dizendo que meu caso tinha alguma urgência, apesar de não muita.

Afinal, não era qualquer coisinha, meu caco de vidro de estimação.

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Cheguei na sala e repeti pra médica toda a história: provavelmente-pisei-num-caco-de-vidro-e-só-reparei-depois-que-tinha-uma-cicatriz-por-cima-mas-agora-tá-doendo-bastante-afinal-até-heróis-sofrem.

Ela me pediu para tirar o calçado e examinou.
Pediu onde era.

Apertou.
Eu gemi.
Apertou de novo.
Eu urrei.
Apertou de novo.
Eu falei PISA MENOS, DOUTORA.

Ela parou de apertar. Olhou pra mim com cara de "Não acredito que tô gastando meu tempo com isso" e disse:
"Você tem um calo."

Quê?
"Isso é um calo. Você tem um calo no pé, só isso."

As minhas perguntas seguintes foram algo entre "por que isso dói tanto?" e "mas isso mata?".

Enquanto isso, ela procurou no Google um nome de um creminho esfoliante da Granado que, segundo ela, resolve tudo. Aconselhou colocar um protetorzinho na palmilha e... pronto.

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Bem, tem algumas pessoas que eu preciso me retratar.
Eu não tinha um caco de vidro no meu pé, ok? Desculpa aí.
Como diria a Folha de São Paulo, erramos.

Mas sabe na Bíblia, que tem todo um mistério porque o apóstolo Paulo dizia sofrer de um "espinho na carne", que as pessoas não sabem até hoje o que é?
Aí inventam histórias desde ele ser homossexual até que ele tinha lepra?

Eu acho que ele tinha um calo no pé mesmo.
Aquelas sandalinhas romanas não deviam ser muito confortáveis.

Isso explica porque ele dava tanta lição de moral, também, porque eu fiquei insuportável com essa experiência.

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Quer dizer, não é porque minha dorzinha veio de uma coisa banal que eu não vou usar ela filosoficamente pra me sentir melhor que os outros.

Todo mundo que eu encontro eu já arranjo um clichê pra meter na conversa.
A pessoa ali, paradinha, e eu já chego puxando assunto:
"Tomando café?"
"Sim", diz a pessoa.

Eu já respondo julgando.
"Bem... cada um sabe onde o calo aperta, não é?"
"Como?"
"Olha, olha! Não pisa no meu calo!"

A pessoa acha estranho.
"Cê não tá falando nada com nada, Flávio"
"Ah, é? Antes de me julgar caminhe um quilômetro com meus pés!", e saio revoltado.

Podem reclamar o quanto quiser.
Não me calo.

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