4.9.17

A importância do fundo do poço

ou: Abandonar também é amar

Se alguém perto de você está cometendo os mesmos erros várias e várias vezes, é natural querer ajudar. Também é natural insistir na ajuda, ainda mais quando se trata de alguém que você ama muito.

Mas, se você está tentando muito evitar que alguém sofra, ou caia no mesmo padrão de erros que repetiu muitas vezes, deixo uma sugestão: Abandone.

Não por falta de amor, mas por amar.

--

Na solidão e sofrimento inevitáveis que o fundo do poço traz reside uma capacidade de ganhar lucidez que estar protegido e guardado de chegar lá não permite. Tirar carinhosamente a mão de uma pessoa que insiste em tentar tocar o fogo nunca vai ensiná-la a não fazê-lo mais. A dor e o arrependimento de uma queimadura são professores muito melhores.

Abandonar alguém aos seus próprios recursos é justamente o que faz essa pessoa questionar se realmente tem os recursos que acredita ter: sem alguém para recuperar ou protegê-la, e sem capacidade de realmente mudar por conta própria, cai a última barreira da vaidade e pode surgir um sincero - ainda que sofrido - pedido de ajuda.

Aí, com autorização, é possível estar ao lado da pessoa enquanto ela reavalia suas atitudes. Ao lado, não à frente e não empurrando: é importante que a pessoa esteja plenamente consciente do seu próprio desespero e fundo do poço enquanto tenta melhorar.

Não faz bem consolá-la disso. É no desespero e no cansaço que a motivação permanece.
O desespero e a sensação de morte causada pelo fundo do poço é o que vai lembrá-la de que ela precisa de outras pessoas e que ela precisa tomar responsabilidade pelo que faz.

--

É um processo muito doloroso para quem está ao lado. Abandonar alguém que está sofrendo questiona todas as teorias de que precisamos ser pessoas boas, samaritanos sempre dispostos a ajudar, e derruba a ideia de que amar é estar ao lado da pessoa que sofre.
Mas é essencial.

Amar é ter um preço. Amar é se afastar quando os requisitos básicos do amor não são cumpridos. Amar é permitir que a pessoa lide consigo mesma, abandonando qualquer tentativa de protegê-la de suas próprias atitudes.

Quem ama aguenta muita coisa, simplesmente pela ignorância que o amor dá. O amor é muito fantasiado como um processo de acolhimento interminável, e isso está registrado fundo no nosso próprio medo instintivo de sermos abandonados.

Por isso mesmo, abandonar alguém que está em um padrão doentio precisa ser um processo racional. Precisa ser um ato calculado, preciso e limpo de afastamento, que resista às tentações dramáticas de uma reconciliação que interrompa o - tão necessário - fundo do poço da outra pessoa.

E, como alguém que está apaixonado multiplica o desejo que tem pela outra pessoa depois de uma rejeição, uma pessoa abandonada aos próprios recursos percebe que ela mesma foi sua algoz e abandonadora, e pode encontrar, exatamente nisso, uma esperança de amor por si mesma.

Se, depois disso, vai tentar conquistar a si mesma ou não, isso depende só dela.

Um comentário:

  1. Excelente texto que nos faz refletir sobre essa pessoa samaritana que somos,e, por isso, achamos que nosso amor deva ser incondicional, impedindo o outro de sofrer e crescer.
    Ando lendo os seus textos e achando muito verdadeiros.
    Parabéns pelos textos. Indubitavelmente, hão de contribuir para o conhecimento e burilamento do leitor que se dispõe a lê-los.

    ResponderExcluir

Não agrade seus pais

É praticamente regra: até os melhores pais trabalham no esquema do amor condicional. É assim que seres humanos funcionam: eu te amo mais q...