3.9.17

Experiência e sentido

“Você nunca viu seu rosto.”

Vi essa frase em algum lugar bobo da internet e fiquei encucado. Fora meu nariz largo, que aparece na frente dos olhos a todo momento, e minha bochecha, que tem pele sobrando como se eu fosse um cachorro sharpei e dá pra puxar pra frente do olho, eu nunca vi minha própria fuça.

Sorte, porque se eu não consigo passar na frente de um espelho sem ajeitar o cabelo, se eu tivesse contato constante com a minha aparência eu estaria perdido.

Engraçado como a gente passa a vida toda numa obsessão com uma aparência que a gente nunca vê, apenas percebe através da projeção no espelho e na reação do outro.

Mas tudo bem: o resto da gente, a gente conhece em primeira pessoa.  Ou não?

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As redes sociais estragaram a experiência.
Quer dizer, elas deram uma mãozinha pro narcisismo que já imperava, mas não conseguia ir muito além da casa da vizinha que se interessava pela sua vida. A competição era mais direta.

Agora não: é a nossa vida contra a do mundo. Todos enxergam todos e e tá todo mundo querendo ganhar. Não basta mais viver, é preciso mostrar evidências.

Pictures or it didn’t happen.

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Um grande sinal de que uma pessoa está se sentindo vazia é o registro constante do que se passa em sua vida*.
(*Querido diário, acabei de perceber a ironia. Um abraço!)

A ausência de verdadeiro contato consigo mesmo é o que cria a sensação de vazio, quer dizer, não sentir a vida pelo lado de dentro cria a necessidade de criar provas, para si mesmo, de que se está vivo.

E aí começam as fotos, os check-ins, as loucuras de fim de semana feitas sob encomenda para que alguém se sinta vivo, ainda que seu pulso emocional esteja fraquejando. Ter o feedback do outro, por exemplo em uma rede social, ajuda a acalmar a angústia desse vazio.

“ESTOU VIVO?”, grita alguém, postando uma foto de uma cerveja na sexta-feira, legendada com “Começando os trabalhos”.
“Vivíssimo!”, responde quem curte.

Que alívio.


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Foi isso que estragou o ato de viajar.

Viajar já foi o símbolo do crescimento pessoal, do momento em que uma pessoa renuncia a sua vida cotidiana para mergulhar no mundo da experiência plena.

As pessoas ainda acreditam nisso, mas o mercado já percebeu o potencial disso faz tempo. Agora, viagens são vendidas como experiências - mas experiências úteis, registráveis, comprováveis, compartilháveis.

Porque ninguém vai postar fotos de um passeio pelo transporte público de Osasco, ainda que essa experiência possa ser tão transformadora quanto um fim de semana no Tibet.

Da mesma forma que é absolutamente proibido praticar ioga sem a presença de uma câmera.

É o cúmulo do fetiche pelo registro: o momento de experimentar a si mesmo pelo mundo só é válido quando registrável. Se gerar inveja, melhor ainda.

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O registro da experiência é menor do que a experiência, mas é vendável.

É o que faz a Taylor Swift ganhar mais do que uma professora que canta para seus alunos de pré-escola. Ela é mais registrável. Sua emoção é mais fácil de identificar, empacotar e vender. É emoção mais destilada mesmo, pra consumo bruto, pra entrar na veia e dar sensação de vida.

É daí que surge essa angústia que tanta gente tem sentido: viver em busca de experiências registráveis é competitivo demais. Se o registro da experiência do outro é mais impactante do que o meu, a minha experiência não vale nada - por mais que eu tenha gostado dela.

E aí é necessário ter o corpo melhor. A viagem mais fotografável. O namoro mais instagramicamente adequado.

Não é por nada que quase toda criança hoje em dia sonha ser Youtuber, porque não basta mais registrar a própria vida. É preciso ter plateia. E a plateia anda cada vez mais escassa, preocupada em fazer seus próprios registros para mostrar pro mundo.

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Pra escapar disso, só se precisa lembrar que o feedback mais importante que temos da nossa vida é nossa própria experiência.

Lá dentro, longe dos likes e próximo do próprio gosto.

Porque o gostar lá de dentro é sempre simples. Se contenta com um bom amigo e um dia de sol deitado na grama. Só existindo, só sentindo, só sendo.

Não é necessário enxergar o próprio rosto para saber que ele está lá.

Basta sentir para encontrar sentido.

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