27.10.17

A culpa não é sua


Quem procura terapia e lê textos sobre saúde mental na internet geralmente é o tipo de pessoa responsável demais, que quer acertar em tudo, que não quer incomodar, que sente que precisam fazer alguma coisa para receber amor.

Esse texto é para vocês, neuróticos queridos.
Pessoas espertas, que viam os outros falando mal de gente que era folgada, e assumiram desde cedo muita responsabilidade.

Vocês que são maduros. Que sabem cuidar de si. Que resolvem qualquer situação. Vocês que mal podem ver uma responsabilidade que já vão assumindo.

Vocês estão errados.

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A gente fica desse jeito quando tem a sensação de que, se não cuidar de tudo o tempo todo, as coisas vão dar errado.

É difícil abrir mão desse ponto de vista, porque viver assim funciona!

Você vai bem no trabalho. Seu chefe te adora. Não te dá um aumento há seis anos, mas sabe que você entende a situação da empresa. Não tá fácil pra ninguém, e você assume a responsabilidade de apertar os cintos por ele.

Sua família pode contar com você. Seus irmãos tem a vida deles, então é você que precisa levar sua mãe para todas as consultas médicas. Você reclama, mas se você não fizer, quem faz?

Você está cansado, mas mora bem, não tem tanta coisa dando errado na sua vida (pelo menos comparado aos seus parentes e amigos menos responsáveis) e esse é a vida, não é?

Até que você surta.

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Quem já teve uma crise de ansiedade sabe do que eu tô falando.

É tanto controle, é tanta coisa pra resolver, é tanta pressão de todos os lados que o corpo começa a gritar "PERIGO!".

E é um perigo real, porque como é que o mundo vai andar se você não estiver cuidando de ABSOLUTAMENTE TUDO O TEMPO TODO?

Essa sensação é destruidora: você passou a vida inteira tentando cuidar pra que as coisas não desabassem, e elas acabaram desabando por excesso de cuidado.

Você se perde. O corpo não dá mais conta, as emoções não conseguem mais se organizar. Por falta de opção, você precisa largar suas responsabilidades.

E qual é o tamanho do tapa na sua cara quando você vê que, mesmo sem você cuidar de tudo, o mundo segue em frente.

Você não era tão importante assim.

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Então confessa aqui pra mim, meu colega neurótico: Você sempre teve inveja de quem levava a vida sem se preocupar.

Sempre quis aproveitar a vida como aquele seu irmão que não fazia a tarefa de casa quando sua mãe mandava, levava bronca e ainda assim não estava nem aí.

Sempre teve inveja da sua amiga que não se importava em se arrumar toda pra encontrar o namorado, enquanto você fazia o maior esforço pra estar apresentável, e ainda tinha mil homens no pé.

Ou do colega que saiu tocando violão em vez de fazer faculdade, e até que tá se dando bem na vida.

Essas pessoas que vivem a vida sem culpa nenhuma, enquanto você se culpa de cada passo que dá fora do caminho estabelecido.

Posso falar uma coisa? A culpa não é sua.

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Amigo responsável, você sabe que tem gente se aproveitando do seu desejo de deixar tudo na mais perfeita ordem. Gente que vai tentar te fazer se sentir culpado se você não fizer até a parte deles do trabalho.

Mas se as coisas derem errado quando você abrir mão de ser o único responsável por elas, isso quer dizer que elas já estavam desorganizadas desde o começo.

Talvez você tenha até atrapalhado a boa organização dessas coisas quando assumiu todas as responsabilidades pra si mesmo.

Seja responsável, mas seja responsável por ir até onde pode. Seja responsável por dar limite pros outros, e permitir que eles cumpram com a responsabilidade que é deles - não sua!

Deu errado? Problema deles. A culpa não é sua.

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Não se preocupe, você não vai se transformar num vagal. Sua responsabilidade não vai sumir completamente.
É questão de estrutura. Você é formiga, não é cigarra.

O que não significa que você não pode relaxar um pouquinho e agir como se os problemas do mundo não fossem todos com você. Você pode, inclusive, usar sua neurose pra planejar bem certinho como você pode se divertir e ainda assim ter uma aposentadoria saudável.

Use sua neurose ao seu favor. As cigarras podem até cantar o dia todo, mas só as formigas sabem o que é realmente doce.

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