20.10.17

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a comunicação e o respeito entre todos os portadores do sexo masculino: o aperto de mão.

O que começou como uma maneira de mostrar mutuamente que ninguém tinha uma espada na mão dominante, e que qualquer assassinato que ocorresse ali aconteceria em termos mais justos, virou uma linguagem. Apertar mãos com a pressão correta, pelo tempo suficiente pra indicar conforto e firmeza, era uma capacidade a ser dominada para conquistar o respeito em sua comunidade.

Em poucos segundos, se determinava quem era o mais forte da relação, quem dominaria a conversa, quem sairia ganhando na ransação do momento.

Eram tempos mais simples, até que um cretino resolveu cumprimentar com a mão em pé e o dedão pra cima, em vez de pra frente.

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A hora em que um homem inventou de cumprimentar outro de uma maneira diferente que o aperto de mão tradicional foi o equivalente moderno da Torre de Babel.

Nós, homens, não falamos mais a mesma língua na hora do cumprimento.
Olhamos invejosos para as mulheres e seus beijinhos no rosto. Quanta intimidade! Quanto conforto consigo mesmas! Quanta confiança na certeza de que a outra mulher não está com uma espada escondida, pronta para matá-la!

As mulheres dominam todas as outras formas de comunicação muito melhor do que nós, o aperto de mão era tudo o que a gente tinha.

Mas nós, homens, temos tradição em não saber apreciar o que está - literalmente - em nossas mãos.

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Toda interação social entre dois homens, nos dias de hoje, começa com momentos de ansiedade e tensão.

Ao se deparar com outro homem vindo em sua direção, um homem tem milésimos de segundos para tentar adivinhar qual aperto de mão usar com essa pessoa. Em pouco tempo, você precisa enquadrar o homem que vem na sua direção em algum perfil.

Tem os tradicionais, que cumprimentam com o aperto de mão tradicional, sisudo, sério. Esse cumprimento já foi sinal de respeito, mas foi apropriado pelos assaltantes como uma forma de dizer "Se você nem me cumprimenta, tá me dando motivo pra te assaltar, e se cumprimenta, tá dando abertura".
Além dos assaltantes, o aperto de mão tradicional é muito utilizado por advogados e corretores de imóveis. São áreas muito parecidas.

Tem os que querem fazer um cumprimento informal, então espalmam a mão na sua com toda a força que tem, com uma intimidade que casais juntos há décadas não conquistam. Esses são os engraçadinhos, os que tem ambições de fazer stand up comedy, os que vão passar horas te explicando como funciona o futebol americano sem você pedir.

Tem aqueles que já chegam balançando a mão desde as costas, estendidas, pra fazer aquela puxadinha e dar aquele soquinho adolescente de uma mão na outra, um cumprimento que diz "Eu tenho trinta e cinco anos e brigo com a minha mãe pra assistir o que eu quero na televisão".

Tem os cumprimentos combinados, com coreografias individuais para cada amigo, cada um com sua dança particular. Esses são utilizados por pessoas com muito sofrimento dentro de si.

Se você erra na hora de adivinhar o jeito certo de cumprimentar o outro rapaz, vai ter de enfrentar longos segundos de toque descoordenado e perdido entre uma mão e outra, um pânico intenso na hora de encontrar um novo cumprimento em comum, que funcione.

Não é à toa que precisamos ser violentos e encontrar oportunidades pra bater uns nos outros. O toque entre dois homens é uma zona de desconforto e nebulosidade.

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E os tapinhas nas costas?
Não há nada mais desconfortável que encontrar a dinâmica do abraço entre dois homens.

Você só abraça um homem com o qual já sente alguma intimidade, mas não há como saber qual a intimidade dele com você. Aí? Quando o momento é de celebração, então, o que você faz?
Começa avaliando, com um toque sutil de ombros. Talvez um, talvez dois tapinhas nas costas. Nada que ultrapasse três segundos.

Abraço, abraço mesmo, só no cadáver do seu pai, na hora do enterro. E ainda corre o risco do velho abrir os olhos só pra te dizer, com a boca costurada, que é pra você segurar a onda.


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É difícil subverter essa confusão toda e encontrar uma maneira universal de cumprimentar homens.

Todos os cumprimentos existentes tem seu grau de polêmica, e minha tentativa de inovar cumprimentando todo homem que eu encontro com um demorado beijo de língua foi recebida com níveis mistos de reprovação e reciprocidade.

Mas é um desafio que precisamos enfrentar. Insisto que uniformizar o cumprimento vai trazer tranquilidade e paz. Dizem que a incidência de crimes na adolescência cai em 45% em comunidades onde o aperto de mão é regulamentado, mas carece de fontes.

Só sei que enquanto não encontrarmos uma maneira de encontrar a paz entre os homens através do aperto de mão, é melhor não cumprimentar ninguém.

No máximo, ao cruzar com um conhecido na rua, assentir com a cabeça e falar um constrangido "Opa!".

E morrer um pouquinho por dentro.

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