24.11.17

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abençoados. Tem todo um submundo de sofredores em tempo integral que, por conveniência, deixamos esquecidos num canto da memória.

São os doentes, os abandonados, os esquizofrênicos, os pulmões-de-ferro, essa multidão que a gente usa só nos momentos da nossa própria dor, pra relativizar nossa situação e se convencer que não está tão ruim assim.

O engraçado é que, no grupo dos que estão nesse sofrimento grandão, bruto, tem muita gente que dá show na gente sobre como viver com tranquilidade.

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Não sei explicar o motivo, mas quem teve a oportunidade de conviver com alguém com uma doença terminal ou muito grave sabe como é a transformação que um sofrimento desses faz com a pessoa.

Ninguém é herói e ninguém lida com isso sem muita briga, mas em alguns momentos surge uma aceitação que só se atinge num estado desses. É algo um passo além da resignação, como se a aceitação fosse tão profunda que saísse de um mero "Ok, isso está acontecendo na minha vida" e fosse para um "Muito bem, é isso que eu sou agora, e eu vou honrar esse papel que eu recebi".

Então, de alguma forma, misturando um senso de sacerdócio naquele sofrimento todo, a pessoa adquire forças suficientes para seguir o baile sem negar a situação ruim em que está.

Não gosto da palavra "missão" porque ela parece tentar convencer alguém que está muito doente de que ela tinha mais é que sofrer mesmo, mas parece que quem lida bem com problemas tão graves acaba encarando dessa forma mesmo.

Algo como um "Se é isso que me resta, deixe-me enfrentar com alguma dignidade pelo tempo que eu tenho."

Um "aceita que dói menos", se for resumir.

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A gente subestima muito a quantidade de coisas na nossa vida que somos condenados a aceitar.

Não escolhemos nossa aparência, além do corte do cabelo e, tendo grana, aquilo que um cirurgião plástico consegue fatiar. Não escolhemos nossa altura, não escolhemos nossa aptidão física, nem a maior parte dos aspectos de nossa saúde, nem o ambiente em que crescemos, nem nossa família, nem nada.

Nós somos o amontoado de todo o aleatório que fez a gente parar no mundo. O personagem vem pronto.

Daquilo que podemos fazer com aquilo que somos, podemos tirar um pouco mais de liberdade, mas o resto? Só podemos aceitar.

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Viver é aprender a aceitar imposições e mudanças. Só isso.
Por isso que a adolescência é o capeta que é. Todo mundo ao redor parece estar bem ajustado e bonito, e você com aquele pescoção que cresceu antes do resto do corpo, aquela espinha gigante na testa.

E aí você fica com raiva. Chora, culpa os pais, reza, muda a postura tentando disfarçar, faz o diabo.
Mas não adianta: aquilo no espelho é você.

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Ficar adulto não ajuda em nada, porque envelhecer é brincar um jogo de aceitação em que ganha quem aceita que perdeu.

As mudanças vão aparecendo aos pouquinhos, sorrateiras, e você precisa atualizar a listinha daquilo que faz parte de você a cada dia. Você se surpreende quando olha no espelho:

"Essas bolsas debaixo dos olhos não vão mais embora não? Que merda." - respira fundo e tenta aceitar - "Muito bem, é isso que eu sou de agora em diante. Uma pessoa com olheiras e bolas profundas sob os olhos."

Isso pra tudo:
"Joelhos que doem o tempo todo? Bem vindos! Esse sou eu agora: a pessoa que eu era ontem, somada a um par de joelhos que doem o tempo todo."

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É quase como se fosse um guichê de desgraças:
"Aceita que agora você não pode mais dançar como na juventude?"
"Aceito."
"Aceita que agora sua visão não é mais a mesma de antes?"
"Aceito."
"Aceita que sua mãe morreu e você nunca mais vai comer a polenta com queijo que ela fazia?"
"Aceito."
"Aceita esse traste como seu legítimo esposo?"
"Manda ver."

Você envelhece, merda acontece, você aceita.
A cada dia você incorpora o novo e luta pra aceitar que o personagem que você interpreta mudou.

E tem alternativa?

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Tá vendo como é fácil esquecer de quem tá com um problema grave mesmo?
Em dois parágrafos eu fui de pensar em quem tem uma doença terminal pra uma lamentação sobre como é ruim ter rugas no rosto.

Mas a verdade é que ninguém precisa de uma doença grave pra adquirir a sabedoria de quão bonita e impositiva é a missão de ser aquilo que é, mesmo quando você é alguma coisa de que não goste.

É a única forma de dar sentido à vida: tentar conciliar as sinas às quais fomos condenados em um quebra cabeça que, de alguma forma torpe e esquisita, resulte bonito.

Se não resultar bonito, a gente aceita também.

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