13.11.17

Faxineiras

Eu só me senti verdadeiramente próspero na vida quando chegamos num ponto em que não estávamos mais dando conta da limpeza da clínica sozinhos e precisamos contratar alguém pra vir a cada duas semanas fazer a limpeza pesada.

Foi assim que conheci a Lázara.
A Lázara é uma máquina, uma grande máquina alta intensidade, que mesmo depois dos sessenta anos limpa uma casa grande em menos de três horas, usando só um balde, um pano e um rádio AM ligado na estação evangélica.

Reclamar, ela só reclamava de não poder vir mais cedo fazer a limpeza. Começar às oito era muito tarde pra ela, que preferia vir antes para poder emendar outra limpeza depois.

Aliás, um horário com ela era quase impossível de conseguir, porque ela sempre foi disputada pelo bairro todo - e ela nunca parava de trabalhar. Me contaram que ela tinha até uma casa na praia, como se fosse um escândalo uma diarista ter uma casa na praia.

Um dia eu até perguntei pra ela se era verdade:
"Lázara, você vai viajar no feriado?"
"Sim! Vou pra minha casinha na praia!"
"Que bom, descansar um pouco faz bem..."
"É, eu não descanso muito. Primeiro eu tenho que limpar a casa lá, depois eu tenho os meus clientes daqui que também vão pra praia no feriado, então quando eu vou pra lá eu limpo a casa de praia deles também..."
"E aí você descansa?"
"Não, aí eu vou aproveitar pra levantar um muro na frente de casa, que tá precisando..."

Não ouse se chamar de workaholic num mundo onde existe a Lázara.

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O preço que a Lázara pedia pela faxina era tão pouco que a gente deu um aumento pra ela à força, pra conseguir dormir sem peso na consciência.

A diária não era só pra faxina, era também um ingresso pra presenciar a força daquela mulher. Mesmo baixinha e aparentemente frágil, ela levantava móveis pesados como se fossem plumas, usando uma mão só, enquanto a outra mão passava o rodo.

Diz a lenda que ela já levantou uma jamanta de duas toneladas pra limpar uma mancha de óleo que estava embaixo.

Enfim, Lázara era um monstro, uma maravilha de pessoa, daquelas que a gente sabe que não vai saber viver sem.

Até que acontceu de precisarmos viver sem. Ela pediu pra liberar o nosso horário quinzenal com ela, porque ela estava precisando fazer um tratamento na coluna (quem diria que levantar coisas com dezoito vezes o peso do corpo fazia mal pra coluna?) e esse era o único horário que o médico tinha.

Nos outros dias, ela seguiria trabalhando. O motivo pra ela fazer o tratamento? Conseguir pegar o bisneto no colo.

Bisneto, gente, bisneto!

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Saiu a Lázara, entrou a dona Zeli. Outra sessentona.

A Lázara não é dona Lázara porque não gosta, e porque a energia dela já diz quem é que é a dona logo de cara. Já a dona Zeli precisa do dona, porque ela inspira uma coisa mais calma, mais maternal.

Ela não limpa as coisas com a voracidade da Lázara. Ela é a calma em pessoa, passa pano como quem faz um cafuné no chão, leva os panos sujos pra lavar em casa, com cuidado, e traz dobradinhos na limpeza seguinte.

Ela mesma puxa o assunto:
"O meu negócio é criança, sabe?"
"Ah, é, cê cuida de criança também?", perguntei.
"Não, eu sou professora aposentada."

Fiquei surpreso.
"Mas agora ninguém mais quer me contratar. Tô velha. Eu trabalhei na rede de ensino por anos, sou especialista em educação de crianças com deficiência", disse ela como se isso não fosse nada, enquanto esfregava a pia da cozinha, "só que agora não presta pra nada".

Doeu meu coração.

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É por isso que me dá vontade de bater na cara de quem fala "Eu cumprimento da faxineira ao presidente" querendo mostrar o quanto é uma boa pessoa.

Inclusive, se tem alguém com mais honra que o presidente, são essas duas mulheres. Quer dizer, todo mundo tem mais honra que o Temer, mas principalmente elas.

Inclusive, gostaria de fazer uma proposta: Vamos dividir o governo do Brasil entre a Lázara e a dona Zeli.

As duas seriam co-presidentes, e teriam uma ditadura temporária.

A Lázara esfregaria a cara de cada membro do congresso com água sanitária e seria responsável por deixar todas as esferas de governo limpinhas, pra depois organizar.

A dona Zeli gerenciaria a educação e as questões diplomáticas. Seria ela a responsável pelo ousado projeto de tratar gente como se fosse gente - algo que o nosso governo atual jamais faria.

Recomendo fortemente que a gente implemente essa forma de governo.
Minha única condição é que, a cada quinze dias, uma delas seja liberada pra fazer faxina aqui na clínica.

Aí sim, teremos paz.

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