14.11.17

Rituais


Rituais são necessários para marcar qualquer fim de fase na vida. É com o ritual do casamento que a gente se despede da vida de solteiro, com o ritual do velório que a gente se despede da vida, e com o ritual de fazer uma piada machista sem pensar que a gente se despede de metade dos seguidores que tem no Facebook.

Pra marcar o fim da infância, há vários rituais. Os judeus tem seus bar mitzvahs, as meninas tem suas festas de debutantes, meus colegas no interior tinham suas primeiras vezes com uma cabra... Enfim, o ritual varia.

Mas, se para as meninas a menarca inaugura a vida adulta, para os meninos, o fim oficial da infância é o momento exato em que começa a feder o sovaco.

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Meninos são desligados, meninos correm o dia todo, meninos fazem movimentos intensos com o braço direito debaixo do cobertor.
Logo, meninos suam.

Mas meninos também tem muito pouca autopercepção, então demora um pouco até se tocarem que precisam passar um desodorantezinho todos os dias. Os piores odores registrados no mundo são os de cadáveres abandonados, de enxofre queimado e de vestiário masculino cheio de adolescentes.

Alguns demoram pra perceber que o desodorante se passa antes, e não depois, de estar encharcado de suor. Alguns acham que, se suor é um cheiro ruim, desodorante só pode ser um cheiro bom, e por isso se banham em uma piscina olímpica de Axe achando que vão abafar.

Aos poucos, eles vão se acostumando, os hormônios descansam e o fedor vai embora. Mas há homens que passam uma vida inteira sem perceber que fedem. A estes, falta o ritual. São perpetuamente imaturos.

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Na minha família, tínhamos algo além do fedor para marcar nossa saída da infância: acne!

Quase todo mundo tinha muita espinha na adolescência. Os álbuns de família parecem ter sido atacados traças armadas com uma caixa de alfinetes, mas não, é só o jeito que as nossas peles ficaram depois de tanto espremer espinha e cravo.

Eu devia ter uns treze anos, fui lavar as mãos antes de almoçar e reparei que estava com uma espinha enorme na testa. Enorme, como se eu estivesse na metade do processo de virar um unicórnio, como um Hulk que se transforma quando se sente fofo.

Espremi a bicha.

O plotz que uma espinha faz quando explode é um dos maiores prazeres da vida, mas essa em particular tinha muito mais do que o plotz. Ela continuou inchada depois de espremer, cheia de sangue dentro.

Eu, como um homem do campo determinado a secar uma vaca, espremi aquela espinha até o último litro. Dava pra ter salvado um hospital infantil inteiro com a quantidade de sangue que saiu daquela espinha.

Como um sábio, limpei o sangue na toalha branca do banheiro e fui almoçar.

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Minha mãe urrou quando viu:
"Quem diabos sangrou na toalha de rosto inteira?"

Era minha hora de ganhar atenção. Fiz minha melhor cara de coitado e falei:
"Fui eu, mãe..." - pela minha voz, eu estava morrendo de hemorragia - "...eu espremi uma espinha e saiu muito, muito sangue."

Não sei bem o que eu esperava, mas talvez algo como abraços, apoio e gritos de "Você é nosso guerreiro! Você sobreviveu a toda essa perda de sangue!", ou "Meu Deus, filho! Evite ficar com anemia, coma urgente essa barra de chocolate!".

"Se você fizer isso de novo eu vou arrancar seu couro! Que nojo!", disse a minha mãe. Eu sinceramente não entendi qual era o problema. Ela percebeu.

Mães precisam ser ridiculamente didáticas às vezes., então ela me explicou:
"Se alguém limpasse a menstruação na toalha, cê ia gostar?"

Ah, faz sentido. Que vergonha.

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Eu era bem perdido para algumas coisas, mas o desodorante estava sempre em dia, inclusive porque eu era uma criança viada que vendia Avon. Já fedi por muitos motivos, mas nunca por falta de desodorante.

Até ontem.
Saí do banho antes de ir trabalhar, peguei o desodorante e... acabou. Só deu para uma axila. O outro sovaco saiu desprotegido.

"Tudo bem", pensei, "não vou andar muito e posso comprar outro hoje à tarde".

Acontece que justo ontem eu me distraí dentro do ônibus e desci super longe de onde eu precisava ir. Caminhei quarenta minutos, encharcando um lado da camisa enquanto o outro continuava intacto.

Então, me perdoem se eu estou meio fedido.
É um ritual importante pra mim. É hoje que eu amadureço.

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