2.12.17

Sofrimentos

Eu não sabia que era possível conviver com uma pessoa por tanto tempo e não sentir absolutamente nenhuma conexão com ela.

Mas foi assim que aconteceu com essa moça, que trabalhou comigo por sete meses. Linda de parar o trânsito, sempre no meio do povo, com o marido e a filha pra cima e pra baixo, ganhando um bom dinheiro e com uma família tão descolada que parecia saída de um comercial de aplicativo de banco.

A gente se cumprimentava todo dia, beijinho no rosto, “como você tá?”, mas era esquisito.

A sensação que eu tinha era a de conversar com uma fotografia de tamanho humano impressa num papelão.

Eu tentava fazer alguma piadinha, ela ria sem parecer ter entendido. Ela tentava me incluir falando “Olha o psicólogo, pergunta pro psicólogo o que o psicólogo acha, psicologicamente!”.

Ela me parecia meio rasa. O que eu achava, no fundo, é que ela não gostava de mim.

De qualquer forma, sempre nos tratamos muito bem.

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Eu estava matando tempo no quintal da empresa quando nos encontramos.
Minha primeira reação foi de levantar rapidinho, pra disfarçar que eu não estava fazendo nada, mas então lembrei que era aniversário dela.

Fui até ela e dei um abraço. “Feliz aniversário!”

Ela me abraçou forte. Bem forte.
Apertou a unha nos meus braços, de tão forte. Sussurrou no meu ouvido, com a voz agoniada:

“Feliz aniversário um caralho, né? Tão feliz que tá tudo uma bosta.”

Mal deu tempo de estranhar o que ela falou, porque ela continuou, com o sussurro cada vez mais gritado:
“Feliz aniversário mas a família tá uma merda, o casamento tá arruinado e minha filha me odeia.”

Ela afrouxou o abraço e sorriu.
Mais gente chegou perto de onde a gente estava, e estavam começando a reparar na nossa conversa. Começaram a fazer uma fila informal pra dar parabéns pra ela também.

Ela me abraçou de novo, agora sussu-gritando na minha outra orelha.
“Feliz aniversário, mas eu não faço ideia do que fazer dessa merda de vida. Feliz aniversário, mas eu queria estar correndo pra bem longe daqui.”

Ela me soltou e foi sorrindo receber os parabéns das outras pessoas que estavam por perto. Meu braço doía, de tanta força que ela agarrou.

Enquanto eu olhava aquela mulher linda e bem sucedida, à beira de um surto no dia supostamente mais feliz do ano, lembrei daquilo que todo mundo sabe mas acha tão difícil aceitar:

Tem muita gente sofrendo calada.

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Tem aquele ditado-de-meme que fala pra nunca julgar ninguém que cruza contigo, porque nunca se sabe pelo que essa pessoa está passando.

E sim, todo mundo está com algum sofrimentinho ou preocupação, mas tem muita gente com sofrimento muito muito grande andando por aí completamente destruído por dentro enquanto trabalha, conversa e (finge que) se diverte.

O homem de negócios bem sucedido está preocupado com o tratamento de saúde da irmã e tem muito medo de que mais alguém que ele ama morra.

A moça do corpo perfeito está num relacionamento abusivo e tentando criar forças pra contar para a mãe que apanhou.

O colega que recebe os parabéns de todo mundo por ter parado de fumar está sofrendo muito porque sente que perdeu um dos maiores prazeres que tinha e sabe que voltar atrás e acender um cigarro vai lhe fazer se sentir um fracasso.

O primo que sempre foi o nerd da família está cortando um dobrado pra lidar com as ideias suicidas que não saem da sua cabeça depois da frustração de não estar dando conta do ritmo da faculdade.

Deve até existir algum felizardo ou outro que está surfando uma onda fácil, mas hoje em dia? Acho que é minoria.

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Estar sofrendo não necessariamente impede de tocar a vida em frente, até um momento em que o sofrimento seja mais conciliável ou que - imagina que sorte! - as coisas realmente tenham melhorado.

Para passar por isso, alguma coisa em nós precisa acreditar que passar por cima de um grande sofrimento é possível e que vale a pena continuar tentando.

Isso fica muito, muito mais fácil, quando alguém percebe nossa condição e se aproxima, nos escuta honestamente e nos faz sentir menos sozinhos.

Quem sabe um olhar mais atento ao seu redor possa lhe mostrar um sofrimento bem na pessoa que você menos imagina.

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A moça do começo do texto? Chamei num canto, depois de um tempo, lhe entreguei o telefone de um bom psicólogo e sugeri com muito carinho que começasse uma terapia. Disse que isso poderia ajudar a lidar com as dificuldades todas que estava passando, e que ela merecia ajuda pra passar por aquele momento.

Ela não ligou para o meu colega, nem aceitou tocar no assunto novamente quando eu perguntei. A decisão é dela, eu respeito.
Espero que esteja se sentindo melhor.

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