31.1.17

Pedro

Roma, 67 d.C. Todo mundo vestido de cortina, como dizia a moda da época.
Um soldado veio dar a notícia:
"Tu, Pedro, foste condenado a morte por crucificação."

Pedro ficou surpreso:
"Como Jesus?"
"Como Jesus. E aí, algum último pedido? Um Big Mac, uma lap dance?"
"Não! Não vou morrer em pecado, nem pela gula, nem pela luxúria. Aliás, também não quero pecar pela vaidade."
"Como assim, Pedro?"
"Meu Mestre maior foi crucificado e eu não quero morrer da mesma forma. Não sou digno nem de morrer como meu Salvador."
"E o que tu sugeres?",  o soldado quis entender. Sem resposta, continuou com uma sugestão: "A gente tá com uma vaga pra apedrejamento amanhã às sete, eu posso tentar te encaixar..."

Pedro pedir por pedradas deixaria um trava-línguas para a eternidade, mas ele achou melhor deixar pra lá:
"Não! Apedrejamento dói demais. Vamos pensar em outra solução... Cê não consegue me arranjar um habeas corpus?"
"Olha aqui, Pedro, vamos logo, a gente já comprou a madeira, já comprou o prego... Se você não tem um último pedido decente, a gente vai te martelar nessa cruz e pronto. Abre os braços."

Pedro quis adiar o suplício:
"Não, calma! Eu sou um homem tão bom! Tão decente! Tão humilde... Em respeito ao senhor Jesus, não quero ir como ele. Me crucifique de cabeça pra baixo."
"Olha, gostei.", disse o soldado, "Inovador."
"É pra mostrar minha humildade."
"Humildade? Sei lá, parece que tu estás pagando de diferentão..."

Pedro passou reto pela crítica do soldado:
"De cabeça pra baixo! Nem que isso me cause uma dor maior que a de Jesus!"
"Tá vendo, que humildão? Sem contar que se o peso do teu corpo não tá apoiado nas suas mãos, a crucificação dói até menos..."
"Lembrarei do Pai até o último segundo!"
"É, e com o sangue todo descendo pra sua cabeça, cê vai perder a consciência rapidinho..."
"Não fale assim comigo, eu já pesquei muito homem nessa vida!"

O soldado achou melhor não discutir com doido:
"Gente, pode pregar. Põe o homem de cabeça pra baixo e mete prego.
"Aí Jesus me disse OLHA AQUI PEDRÃO, essa pedra é você e é pra construir uma igreja e a igreja é você porque você é uma pedra!"
"Pedro, essa ideia de cristianismo está lhe subindo à cabeça..."
"Descendo."
"Ahn?"
"Eu tô de cabeça pra baixo."

O soldado desistiu de vez:
"Chega, gente. Pode abandonar o homem aí, ele não tá falando coisa com coisa. Tá pregado, mesmo, fugir ele não vai."
Mas Pedro seguiu gritando:
"EU TENHO A CHAVE DO CÉU, CACETE!"

30.1.17

Poetas

Não suporto poetas
Eles e a sua impressão de que tem algum talento
De que sabem falar de amor como ninguém
Sua insistência de falar de amor
como se não houvesse outra coisa pra falar no mundo

Não suporto poetas
E sua mania de achar que são especiais
São intensos! Bebem uísque!
"E nossa, semana passada eu quase morri por ela"
São praticamente bueiros
de tão profundos

Não suporto seus esquemas
de rima forçada
A-B-A-B-A-B-A
Seu abandono de sílabas importantes
pelo bem da métrica
A necessidade de cortar
as frases
pelo meio
para ficar bonito
no papel

Não suporto poetas
sustentados pelos pais
que sentem experientes
e profundos e acima dos outros
Esses são os piores
Eles mostram
- MOSTRAM! -
as atrocidades que escrevem
E ainda perguntam
"Que achou do meu poema?"
Para você dizer
"olha, que coisa incrível
é um absurdo que você esteja trabalhando no Banco do Brasil"

Não suporto poetas
Que se acham os primeiros
a falar sobre os assuntos batidos que escolhem
Como se só eles tivessem pensado naquilo em toda a história do ser humano
Como se a sua perspectiva sobre saudade fosse original

Não suporto poetas
que não tem vergonha do que escrevem

Não suporto poetas
porque mesmo num mar de escrita ruim
os malditos acertam de vez em quando
e dizem em duas linhas o que uma novela não soube dizer
infinito enquanto dure, minhas duas mãos quebradas
e largam num pentassílabo a força de um soco no queixo

Não suporto poetas,
eu nunca aprendi a rimar.

25.1.17

A bola

O prontuário, escrito a caneta, não tinha nada preenchido além do básico:
Nome: Francisco Gomes de Paula
Idade: 27 anos. Sexo: Masculino.
Queixa: Uma bola faltando.

O médico foi conferir.
"Me ajuda, doutor!"
"O que houve?"
"Minha bola. Meu bago. O testículo esquerdo. Ele não está mais lá."
Só podia ser bobagem, pensou o médico. Um testículo não some, assim, do nada.

Deitou o paciente na maca e o examinou.
"É, realmente ela não está aqui. Estranho. Quando você a viu pela última vez?"
"Ela estava aí ontem à noite. Transei com a minha namorada, tava ali, eu juro! Aí ela foi pra casa... Eu botei um disco do Ney pra tocar e fui dormir."

"Arrá!", disse o médico.
"O que foi?"
"Foi o Ney. Homem que é homem não escuta música de veado."
"Mas é o Ney Matogrosso, ele é ót--"
Paf! O médico meteu um tapa na boca do paciente.

"Fala baixo! Quer que sua bola direita escute?"

--

"Só um instante," pediu o doutor. "Vou chamar minha secretária".
Interfonou.
"Selminha, me traga uma água, por favor."
Selminha trouxe. O médico agradeceu e a dispensou.
"Francisco, reparou nela? Três anos atrás, ela era Anselmo."

O paciente não entendeu.
"Como assim?"
"Anselmo era um rapaz considerado. Comedor. Lutador de Jiu-Jitsu. Marceneiro. Não se cuidou e perdeu tudo!
"O que ele fez?"
"Um dia Anselmo comprou uma camisa salmão."
"E acordou mulher, doutor??" - o paciente em pânico.

"Foi gradual. Ele foi ficando moderno, sabe? Começou com a camisa, depois foi jogar vôlei..."
"Não pode vôlei?"
"Não pode. É de mulherzinha. Homem joga futebol."
"E o que aconteceu?
"Nisso nasceu a primeira teta. No outro dia, ele foi falar com um amigo e apoiou a mão na cintura... Nasceu a outra."
"Socorro, doutor!"

--

O médico explicou:
"Ser homem é muito perigoso, Francisco. Há precauções a serem tomadas. Cruzar as pernas, por exemplo, é melhor evitar."
"Nunca mais?"
"Nunca mais. Mas se acontecer, ainda dá pra agir rápido. Cospe no chão que ajuda."
"Se eu cuspir no chão eu não viro mulher?"
"Em termos. Tem de ser uma cusparada firme, com ranho, arrancada do segundo subsolo do pulmão. E tem que ser rápido."
"Algo mais?"
"É importante restringir seus comportamentos. Não pode gostar de doce. Lavar o cabelo, só com sabão de soda. Novela, nem o comercial. Abraçar o amigo só se der tapinha nas costas. Chorar, só se for o enterro da mãe. Você pegou a ideia."
"É isso ou eu vou ficar que nem a sua secretária?
"Exato. Ou você toma esses cuidados ou... até o fim do ano você já não vai ter pinto."
Triste diagnóstico.

--

Abatido, Francisco apertou friamente a mão do doutor para se despedir. O médico gritou:
"Que nem macho, porra!"
Todo o cuidado era pouco, dali em diante.

Na hora de ir embora, o rádio do táxi tocava Homem com H. Na cueca, uma sensação estranha.
Lá se foi a outra bola.

24.1.17

Questão de Valor

Às vezes eu tento lembrar o que me fez cursar psicologia.

Entre outros motivos (parentes malucos, falta de noção financeira, vontade de trabalhar sentado), a história a que eu chego é a seguinte:

Eu sempre gostei de escrever. A opção lógica seria fazer jornalismo (trabalha sentado, check, falta de noção financeira, check), porque isso ia me tornar um escritor melhor.

Comentei isso com um amigo jornalista, provavelmente frustrado com o curso, e ele me disse: "Se você quer ser escritor e não repórter, não faça jornalismo. Vai arrancar todo traço de estilo que você tiver."

Ouvi o conselho, afinal eu não gostaria de virar um escritor-jornalista frio, técnico e sem estilo, como o Luís Fernando Veríssimo ou o Machado de Assis.

Achando que ia aprender mais sobre as pessoas e assim criar personagens melhores, assinalei Psicologia no vestibular e segui em frente.

--

O que eu esqueci de levar em conta é que eu não fazia ideia do que um psicólogo fazia.

Quer dizer, já tinha visto na TV, já tinha ido na psicóloga algumas vezes ("Desenhar minha família? Vou fazer de qualquer jeito, o que deve contar mesmo é a história que eu conto, né?", eu falava, enganado), mas não tinha muita ideia de como era essa profissão enquanto carreira.

--

Foi só na faculdade que eu fui perceber o fetiche que as pessoas tem com a psicologia.
Todo mundo que se apresentava dizia que sempre sonhou com o curso, que sempre quis "ajudar os outros", "se conhecer melhor".

Pobrezinhos deles. Antes tivessem vendido rifa pra igreja e feito, porque só se ajuda quem pede e só se entende quem vai estudar a si mesmo. Bem mais barato, inclusive.

--

O curso em si é fácil de fazer (ah vá, colega, é bem mais fácil entender estímulo e resposta do que aprender engenharia de aviões), o assunto é absurdamente interessante e, quando você se firma na clínica (o graal da maioria dos estudantes), você pode tirar um salário decente, trabalha no ar condicionado e um e outro ainda vai te chamar de doutor, podendo usufruir da vaidade de se achar especialista em tudo.

E basta olhar pra carteirinha profissional de psicólogo para alguém surgir de trás de uma pedra e dizer "Nossa, um dia ainda vou fazer psico. É um curso lindo!".

--

"Porra, Flávio, cê tá detonando a nossa profissão!"
Calma, é bem o oposto que eu quero falar.

Depois de formado, a realidade financeira me atingiu em cheio e eu fui ver como a área é difícil.

Por existir tanto psicólogo em atividade por aí, a profissão ficou meio diluída.
Tem muita gente (muito boa, inclusive!) disputando e conquistando espaços em um mercado que já anda numa crise brava.

E aí vem as "soluções" que a gente escuta:
"Atende mais barato! Trinta reais numa sessão é melhor do que nada, né?"
"Essa vaga paga 900 reais por mês, mas pelo menos é na área, né?"

Ao mesmo tempo, os pedidos que a gente recebe:
"Psicólogo ajudaria muito mais gente se cobrasse menos!"
"Dá pra fazer por menos? Eu tenho convênio!" - Mesmo que ninguém atenda seu convênio porque ele paga nove reais por uma sessão de trinta minutos!
"Vocês querem ganhar dinheiro demais em cima das pessoas!"

Eu entendo, sério. Eu também ganho pouco.
Mas a gente precisa conversar melhor sobre isso.

--

A maior parte dos terapeutas faz alguns atendimentos a preço popular quando pode. O engraçado é que a pessoa que está ali porque realmente aprecia o tratamento, por mais que peça desconto, realmente tenta pagar o melhor possível dentro dos seus meios, porque aquilo, para ela, tem valor.

Se eu ganhasse um real pra cada pessoa que aparece de carro do ano e pede um desconto de 60% na sessão porque tá sem grana, eu já ganharia mais do que eu tiro por mês no consultório.

Não tô querendo ser juiz da situação financeira de ninguém, mas também não sou um frei Franciscano pra sair por aí promovendo a saúde mental em troca de um prato de comida.

--

Psicoterapia não é caro.
Não mais caro do que, sei lá, qualquer outra coisa na vida.
Academia, passagem de ônibus, comida, tá tudo caro, mas eu nunca vi alguém pechinchar o quilo do pão no caixa do supermercado.

A questão é bem básica: Qual é a prioridade que você tem na sua vida?
Estar bem ou estar com a vaidade em dia?
Vale tão pouco assim a sua saúde mental?

A gente até está disposto a facilitar o acesso, mas a gente paga caro para estudar, caro para ser membro de uma ordem profissional, caro para se manter atualizado, caro para poder atender num lugar com dignidade, caro para poder sobreviver na área até se estabilizar...

A gente paga caro para poder trabalhar. Não é possível fazê-lo sem cobrar preço algum.

--

"Eu concordo, mas é injusto! Eu tenho pouco dinheiro e quero poder fazer uma terapia!"

Não desista ainda! Se você quer fazer terapia e não tem renda, há algumas opções:

O governo tende a focar seus investimentos em Psicologia Social, que abrange um público maior e tem um escopo diferente do atendimento clínico. Bem sinceramente, é difícil conseguir fazer terapia por qualquer meio público. De qualquer forma, os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) podem servir como referência.

Faculdades de psicologia também costumam ter atendimento terapêutico a preços populares, feito pelos alunos da instituição e supervisionado pelos professores. Pode ser uma boa opção encontrar uma na sua região.

Muitos profissionais também aceitam negociar seus preços se você explicar sua situação e concordar em encontrar um meio termo acessível para os dois enquanto você não puder pagar o preço cheio. 

E você pode cobrar também! Dos seus representantes políticos, do seu plano de saúde, do seu empregador... enfim, você pode fazer barulho para que sua necessidade de atendimento seja atendida.

A gente vai fazendo nosso barulho por aqui também.

-- 

Não me arrependo da escolha que eu fiz. Gosto muito do que eu faço.

É um prazer acompanhar as pessoas enquanto elas reveem seus valores, descobrem seu valor e aprendem a se valorizar. É um processo difícil e demorado, que exige muita responsabilidade e que não há jeito de fazer de graça. 

O trabalho é lindo mas não dá pra viver de lindeza. 
Sabe como é... Questão de valor.

19.1.17

Desconfiados

Uma vez minha mãe estava achando o meu irmão e o melhor amigo dele grudados demais. Amizade adolescente normal, aquela coisa de um não sair da casa do outro.

"Parece que tá namorando com ele, credo!", ela disse.
"E se eu estivesse, que que tem?", meu irmão respondeu.

O mundo da minha mãe caiu.

"JEOVÁ DO CÉU, MEU FILHO É GAY!", gritou ela, do jeito mais dramático possível, "Eu sempre soube, mãe nunca erra!".

Ela tava errada.
Meu irmão, na verdade, fingia que ia na casa do amigo para tentar provocar uma gravidez adolescente numa colega de escola.
Eu, o verdadeiro filho gay, sentei no cantinho imaginando como seria quando chegasse a minha vez de ter essa conversa.

--

Pessoas desconfiadas sempre acham que tem uma intuição ótima.
O maior prazer de um desconfiado é dizer "Ah, nunca fui com a cara dessa pessoa mesmo" quando alguém faz algo de errado.

Só sinto que essa intuição não tem valor nenhum se essa é a impressão que você tem sobre QUALQUER pessoa que passa pelo seu caminho.

--

É impossível criar uma relação de confiança com um desconfiado.
As ações corretas e honestas que você tem não passam de um "hoje passa", um passe temporário para a vida dessa pessoa enquanto a mancada não vem (porque ela vem, o desconfiado tem certeza que ela vem!).

Mas não acredite no pequeno voto de confiança. O desconfiado sempre vai viver no tudo ou nada: basta uma atitude que ele reprove para ser julgado pelo resto da vida, mesmo se for uma coisa pequena.

Se não for pequeno, tudo bem. O desconfiado até gosta quando se fode, só pra poder dizer a si mesmo que "Ah, eu sabia!".

--

Sem contar que a gente vê nos outros o que a gente tem.
A pessoa desconfiada vive na retranca, analisando e colecionando mentalmente as possíveis intenções ruins dos outros para que ela se sinta justificada em botar em prática as suas próprias.

Não é nem a desconfiança em si que me incomoda.
É a conjectura. Meu deus, como o desconfiado gosta de imaginar as intenções do outro.


Duas pessoas que passam muito tempo juntas só podem estar tendo um caso.
Um colega que fica amigo do chefe não é porque tem coisas em comum com ele. Só pode ser um puxa-saco querendo subir na vida.
O desconfiado não pode ganhar uma bala sem acreditar que tem alguma intenção por trás.

Ele não consegue acreditar que alguém possa fazer algo de boa vontade.
Uma pena. Se estivesse mais aberto, talvez recebesse algo de bom e pudesse se esforçar para cultivar essa qualidade em si mesmo.

--

Pior de tudo, o desconfiado é um metido.
Porque de tanto achar que as pessoas estão tramando contra ela, ela se bota no centro do universo.
O mundo é um perigo e ela é o alvo.

Por trás disso, a baixa autoestima e uma profunda sensação de fragilidade.
"Qualquer um me derruba."
"Sou incapaz."
"Não vou deixar ninguém chegar perto o suficiente pra me ferir."

Para se proteger, o desconfiado não se expõe, não se aproxima, não troca. De tanto querer se preservar, o desconfiado se impede de crescer.

--

Claro que é importante tomar precauções.
As pessoas são imprevisíveis e podem nos ferir profundamente, mas passar a vida pensando no que o outro pode estar querendo não ajuda ninguém a se proteger.
Agindo desse jeito, o desconfiado se prende entre duas opções: correr o risco de ser enganado ou viver sozinho. Em nenhuma delas ele é feliz.

A melhor maneira para se proteger é aceitando que as pessoas tem nuances, deixando de acreditar que uma pessoa só pode ser 100% boa ou má. Assim, é possível se relacionar de verdade com as pessoas, pelo que elas são.

Isso é uma libertação dupla: para o desconfiado, que deixa de viver como se todo mundo fosse uma ameaça, e para quem está ao seu redor, que se livra da obrigação de ser um santo.

--

Em defesa do desconfiado, alguma coisa o deixou assim.
Em algum momento ele confiou demais, e expôs uma parte sensível de si para alguém que não soube respeitar a beleza disso. Doeu tanto que ele nunca mais deixou ninguém chegar perto dali.

Mas a cura da ferida que faz o desconfiado enxergar todo mundo como um possível aproveitador é justamente ter um contato próximo, real e honesto com alguém - bem o que a desconfiança impede que aconteça.

Resta o esforço de aprender a baixar a guarda novamente, um pouquinho por dia. Se é possível voltar a acreditar em água fria depois de ter sido escaldado?

Desconfio que sim.

13.1.17

Urano

Urano, 2018.
A população acompanha atenta pelas notícias a chegada de uma sonda enviada ao planeta Terra.

Uns, empolgados pelo avanço da ciência na exploração do universo. Outros, revoltados com o gasto que isso gera. 
"O governo gastando pra levar robô passear e o metano sólido da minha rua todo esburacado? Cadê as prioridades?"

--

A sonda se aproxima da atmosfera terrestre. 
Consegue atravessar a camada de gases e plumft, atinge o local planejado: alto mar no Oceano Atlântico.
O que as imagens transmitem choca o povo uraniano.

"ENCONTRADA VIDA EM OUTRO PLANETA", anunciam os jornais.

"Imagens enviadas pela sonda enviada ao planeta Terra demonstram seres vivos que parecem ter uma limitada consciência. Incapazes de construir objetos, locomovem-se em seu ambiente denso através de contrações corporais constantes. Sem pudor, devoram-se uns aos outros, numa sociedade rudimentar e sem organização."

Embaixo da manchete, a foto de um peixe de boca aberta, com a legenda: "Com pele colorida e escamosa, os terráqueos são indiferentes à presença da nossa sonda".

--

"Estamos surpresos", dizem os cientistas uranianos, "Até então acreditávamos ser impossível a vida num ambiente aquático. Além do mais, a proximidade desse planeta com o Sol gera temperaturas extremas, que chegam a atingir os 30 graus em determinadas regiões."

"Além de onde pousou a sonda, há outras áreas no planeta, não recobertas de água. Nesses locais, o relevo e as condições climáticas certamente impossibilitam a existência desse tipo de vida. A região possui minérios como ouro e prata, inúteis para perspectivas de exploração interplanetária."

--

Terra, 2018.
Um objeto estranho é encontrado durante pesquisas no fundo do oceano. 

Imagens da sonda são reveladas à mídia. No dia seguinte, jornais estampam:
"Civilização submersa? 18 objetos bizarros encontrados no mar que vão te deixar de cabelo em pé!"

10.1.17

Raiva, mimo e a realidade

Pergunte a alguém que explodiu de raiva o porque de ela é explodido e ela vai lhe dar uma lista.
Ela foi injustiçada. Ela faz de tudo pelos outros. Ninguém entende o que ela precisa.
Não havia outra opção senão explodir.

Pra si mesma, a pessoa que tem explosões de raiva é uma santa.

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Normalmente existe algum objeto, um motivo para a explosão acontecer.
"Essa merda de ônibus que nunca vem no horário."
"Nada funciona nesse país!"
"Eu faço tudo nessa casa e ninguém faz nada por mim!"

Mas a explosão de raiva esconde um problema muito mais profundo: a ilusão.

Uma pessoa com explosões frequentes de raiva vive na ilusão de que o mundo tem que satisfazer seus desejos, quaisquer que sejam. O ônibus tem que vir na hora, o país precisa funcionar como um relógio e todos devem antecipar e atender às suas necessidades.

Muito diferente do que o mundo é na vida real.

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Isso não é de nascença.
Se um bebê deseja algo e não é atendido, isso pode lhe gerar uma angústia profunda. Ele chora, ele esperneia, mas se adapta rapidamente. Salvo as necessidades básicas, ele logo se distrai com outra coisa e sofre sozinho com a sua frustração.

É só mais velha que a criança começa a fazer birra.
Depois de tomar consciência da realidade social, a criança já sabe se comparar com os outros - e já pode ver o que eles tem de diferente.

Se o outro tem algo de melhor que ele, surge uma profunda sensação de injustiça dentro de si.

Quando essa criança recebe suporte suficiente para aceitar a realidade dessa injustiça, ela cria em si mesma um mecanismo de enfrentamento de problemas que pode lhe ajudar a lutar contra essa realidade e, se possível, transformá-la.

O maior perigo é quando essa criança recebe a informação de que essa injustiça deve ser corrigida automaticamente, sem um esforço da sua parte.

Questão de mimo. Ai do mundo se não for do jeito que eu quero.
O porquinho que abra a porta, senão eu vou soprar e bufar até a casa desabar.
Explosão.

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Você não precisa ter ter tido uma infância de luxos para ser mimado.

A gente é capaz de se mimar sozinho. Fragilizado diante das dificuldades, é fácil desenvolver um diálogo interno que nos reafirme o tempo todo.
"Eu só me fodo. Ele devia saber que eu quero dormir essa hora e não ligar a TV nesse volume.", e grita com o marido.
"Eu tô num dia péssimo e esse filho da puta me corta no trânsito? Pessoa de merda!", e soca a buzina.

Raiva mal canalizada é birra.
É gritar no corredor do mercado porque a mamãe disse não pro nosso Kinder Ovo.
É querer vencer a vida pela manipulação.

Frustração por que não fomos mimados está na raiz de desde jogar o celular do namorado na parede porque ele não lhe dá atenção até a matar a ex mulher porque ela não lhe desejou mais.
É o mesmo padrão, e é muito mais sério do que parece.
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Veja, o problema não é a raiva em si.

A raiva é saudável e precisa existir. Só se transforma alguma coisa expressando raiva.
O problema é que a raiva, quando não baseada na realidade, é apenas destrutiva.
Raiva bem canalizada, gerando atitudes baseadas em como as coisas realmente são e não na fantasia, pode mudar o mundo.

Num mundo ideal, é claro que todos deveriam se entender, ter seus desejos atendidos e não sofrer frustração. Mas não é assim. O mundo é cru e cruel e não nos obedece.

Sobram duas opções: amadurecer e ver as coisas como são, cheias de falhas, tentando fazer proveito do que o mundo tem ao seu favor e enfrentando as dificuldades que ele se apresenta; ou se prender à expectativa ilusória de que tudo deve ser perfeito, explodindo de raiva toda vez que as coisas não saem do jeito planejado.

--

Mas não é com ira que se cura uma pessoa irada.

Uma criança mimada só vai se divertir brincando quando aprende que não vai ser sempre a estrela do jogo, e que pode ser legal brincar mesmo quando a bola do gol não vai parar no seu pé.

A mudança vem de parar de se dizer para a criança interior que todos deveriam ser do jeito que ela quer, e investir pesado no carinho consigo mesmo.
Vem de começar a dizer para a criança interior que ela é plenamente capaz enfrentar a vida, mesmo quando ela não é a dos sonhos.
Que o mundo é assim mesmo, que é preciso esperar menos dele ou arregaçar as mangas e se dedicar.
Que ela é capaz de satisfazer os próprios desejos, e pode expressá-los com clareza para pedir ajuda, e aceitar essa ajuda do outro do jeito que ela vem, ainda que cheia de imperfeições.

Aprender a lidar com a realidade não ajuda só a evitar as explosões de raiva: permite conseguir conquistar os objetivos que se tem e a realmente solucionar os problemas que causaram a raiva em primeiro lugar.

Só consegue construir algo real quem mora no mundo real, com raiva bem direcionada e sem birra.

6.1.17

Diagnóstico

Eu lembro do meu primeiro fim de namoro sério.

Na época eu fazia estágio com uma psicóloga super conceituada. Depois de umas semanas sofrendo, não aguentei mais. Perguntei se ela podia me indicar um psiquiatra, porque do jeito que eu estava não podia ser normal.

Era muito sofrimento. Estava difícil demais e eu precisava de um remédio.

"Aguenta mais um pouco", ela me disse. "É importante você passar por isso".

Quase mordi a mulher.
Como assim ignorar meu sofrimento, que obviamente era um sinal de algo errado comigo? Mas ela era uma profissional da área e eu dei uma chance pro conselho que ela deu.

Quando eu me dei conta, já estava namorando de novo, terminando namoro de novo, sofrendo de novo... Mas com uma compreensão muito maior de mim mesmo que eu jamais teria adquirido se eu não tivesse me entregado ao sofrimento daquela fase.

--

Uma coisa engraçada de trabalhar com saúde mental é que as pessoas parecem desejar muito um diagnóstico pra chamar de seu. Basta a pessoa saber que eu sou psicólogo pra me passar uma lista de sintomas e me perguntar "Isso é normal?", ou "Eu tô com depressão?".

Ou ainda, é só um transtorno mental aparecer na mídia para todo mundo achar que tem, ou que o irmão tem, o vizinho tem... E é muito fácil se convencer de que se tem um problema mental.

Olha só alguns dos sintomas de depressão:
"Tristeza persistente ou perda de interesse, incapacidade de dormir ou de concentrar-se, alterações do apetite, níveis de energia reduzidos."
Quem diabos não sente isso de vez em quando?

--

Vamos pegar outra doença. Transtorno bipolar, pra complicar um pouquinho:
"Mudanças de humor, tristeza, entusiasmo, ansiedade, apatia, apreensão, culpa, descontentamento geral, desesperança, euforia, perda de interesse, perda de interesse ou prazer nas atividades, irritabilidade, comportamento desorganizado, agitação, impulsividade."

Se você não teve algum desses ítens nos últimos tempos, eu te pago um pastel.
Aliás, você me paga, que você tá bem melhor que eu.

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Agora olha alguns sintomas de esquizofrenia:
"Isolamento social, comportamento desorganizado, falta de moderação, transtorno de pensamento, confusão mental, crença de que um evento comum tem um significado especial e pessoal, desorientação, lentidão durante atividades, ansiedade, apatia, raiva, alucinação, paranoia, ouvir vozes, delírios, depressão ou medo, fala incoerente ou fala rápida e frenética."

Mais difícil, mas ainda assim bastante comum.

--

O que eu quero dizer é que é muito fácil se autodiagnosticar com uma doença grave sem ser esse o caso.

Na faculdade, não tinha uma aula de psicodiagnóstico em que a gente não se diagnosticasse com três doenças diferentes.

Se o transtorno que a gente estudava no dia era particularmente pesado, a gente diagnosticava algum colega, só pra não perder o hábito.
"Cara, compara os sintomas com a Lílian! Cara, bate direitinho, certeza que ela é psicopata."

--

Por isso é bom lembrar que:
1 - Assim como você não diagnostica diabetes só porque a pessoa está bebendo muita água sem fazer um exame de sangue, você não diagnostica uma depressão sem um exame profundo do comportamento da pessoa em um período mais longo de tempo.

2 - Você ter uma crise de tosse não quer dizer que você tem pneumonia, certo? Só quer dizer que, por algum motivo, seus pulmões estão irritados naquele momento. Você leva o contexto em conta. Da mesma forma, você ter sintomas de um transtorno mental não quer dizer que você tenha um transtorno mental. Quer dizer que você tem uma mente. Uma mente que, naquele momento, está irritada e tossindo do jeito que consegue.

--

A vida não é um passeio lindo no parque.
A vida é um conjunto de situações bonitas, estranhas, assustadoras e horríveis, com mais ou menos sentido, e que - por melhor que seja - nunca vai ser fácil de se lidar. Não se passa ileso pela experiência de viver, sem ficar pelo menos um pouquinho fodido da cabeça .

Sofrer, chorar, perder o controle, estar ansioso, ficar paranóico, são só processos que a nossa mente encontrou naturalmente para lidar com essa parada dura que é viver.
E não só de vez em quando: é normal estar assim com mais frequência do que você imagina.
É assim pra todo mundo, pode acreditar.

Claro que existe uma linha separando a dificuldade de viver e a doença mental.
O problema é que ao transformar as dificuldades da vida em doença, vai ser impossível estar saudável.

Agora, quando a gente aceita que ter saúde mental inclui ter problemas,  sem banalizar a doença, fica muito mais fácil ajudar quem realmente tem um transtorno psíquico grave.

--

À primeira vista, receber um diagnóstico é uma delícia. É um sinal de que não é você que está errado, é o seu cérebro que está dando pane.

Um diagnóstico é um alvará pra sofrer em paz.

É muito mais fácil lidar com uma doença do que com uma grande dúvida existencialista. Doença tem remédio, angústia só se atravessa com muito trabalho.
Mas, diria minha chefe, é importante você passar por isso.

Você pode estar angustiado e não estar doente. 
Você pode não estar doente e ainda assim melhorar muito fazendo terapia.
Você pode estar doente e seu tratamento incluir medicação.

E tudo bem! Não há nada de errado com nenhuma dessas categorias.
Seu sofrimento merece respeito simplesmente por existir.

Cuide de você. Se precisar de ajuda, estamos aqui.
O diagnóstico, por favor, deixa com a gente. 

Eufemismos

Eufemismos são lindos. A ação é a mesma, mas por que diabos uma pessoa que fala "Vou fazer xixi" soa tão fofa e uma que fa...