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Mostrando postagens de Fevereiro, 2017

Únicos

A maior prova da falta de humildade do ser humano é que a gente sempre acredita que é o primeiro a passar pelas mudanças que passa.  Não importa quantos trilhões de pessoas já tenham nascido, crescido, metido e batido as botas, a gente sempre acha que nosso ponto de vista é inédito.

Com todo mundo:
O adolescente que acha que é o primeiro a perceber que precisa se rebelar contra o mundo;
O jovem adulto que acha que é o primeiro a se frustrar com os sonhos que teve;
A pessoa de meia idade que acha que é pioneira na ideia de simplificar a vida e dar uma moderada nas expectativas em busca de menos estresse;
O idoso que acha que a geração seguinte é a primeira que não tem compasso moral.

Nada de novo debaixo do Sol: nossas histórias se repetem.
O que não quer dizer que não sejam dignas de ser vividas.

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A gente vive sob a ilusão de ser único.

Não que a gente não seja capaz de entender que o mundo é um formigueiro imenso, todo mundo com as suas frustrações. E, a bem da verdade, tentar se c…

Pegadinhas

Domingo à tarde.
Eu estava sentado no parque, de pés descalços, olhando pro horizonte e tentando tirar uma selfie que preste.
Um garoto caminha e fica em pé, parado, atrás de mim.  Tem uns 18 anos, tênis de marca, todo arrumadinho na moda. Tira o telefone do bolso e começa a falar bem alto: "Tô do lado de um menino com cara de baitola! Isso, vem rápido."
Prestei atenção. "É, de bermuda preta. Listrada. Camiseta branca. Cara de baitola."
Olhei pra baixo pra ver se eu estava vestindo isso mesmo. Estava. A cara de baitola eu não tinha como conferir, mas provavelmente estava usando também.
Ele estava falando de mim.  
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Tentei decidir rápido.  Ficar parado? Enfrentar o menino? Ir embora? Ele continuou falando: "Um com bastante cara de baitola. Vem rápido."
Gato escaldado é foda. Depois da minha adolescência, de precisar sair correndo de gente me chamando de viado dezenas de vezes, eu resolvi zarpar. "Ele tá colocando a meia. Corre aqui."
Eu tentand…

Mas tem que pagar?

No primeiro semestre da faculdade de psicologia, a turma deve ter tido umas quinze desistências.

Alguns porque não gostavam do curso, alguns porque moravam muito longe, mas a grande maioria largou o curso porque descobriu que psicólogo não podia dar palpite na vida do outro.

Infelizmente, ainda não há faculdade que ensine a saber mais da vida da outra pessoa do que ela mesma.
O que não impede que muita gente exerça essa atividade informalmente.

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Quase todo dia alguém vem pedir uma sessão comigo e pergunta se tem de pagar.
Eu estranho, mas não posso falar nada. Me faço a mesma pergunta toda vez que recebo a fatura do cartão de crédito.

Comentei isso no Facebook e pelo visto essa história de querer um serviço sem pagar por ele é epidêmica.

Muita gente contou suas histórias, a conversa foi evoluindo, e alguns contaram outros tipos de absurdos que escutam dos seus "clientes". Selecionei algumas para ilustrar esse texto aqui.

Ficam duas perguntas:

Por que as pessoas acham que d…

Direto ao ponto

PROLIXO:  Facundo; loquaz; palavroso; verboso. Que fala ou escreve usando mais palavras do que o necessário. Que se expressa, falando ou escrevendo, através do uso excessivo de palavras; que não consegue resumir uma ideia ou encurtar um pensamento. Que se perde em explicações supérfluas. Definido como entediante; que se estende demoradamente; enfadonho. Que se desenvolve em demasia.

IRONIA: O dicionário precisar de onze expressões diferentes para definir a palavra "prolixo".

Se você sobreviveu à definição gigante, parabéns! Você vai sobreviver ao resto desse texto.

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Eu sei que muita gente deixa de ler o que eu escrevo por causa do tamanho dos textos.

Mas fazer o quê? O tempo que as coisas demoram pra ser ditas é... o tempo que elas demoram para ser ditas.

Eu até poderia ser mais curto e grosso e ir direto ao ponto de uma só vez, mas qual a graça de uma história se ela não dá algumas voltinhas? Aliás, dizem que todas as histórias já foram contadas, então... resta colorir o …

Último andar

Que papel ridículo.

Cabeça baixa, terno, gravata, o buquê de flores na mão, caminhando por entre os cubículos de fórmica daquela empresa, apressando o passo e tentando não pensar que todos ali o olhavam com pena.

Mas como ele poderia imaginar? Depois de dois anos de namoro, mil jantares juntinhos, conhecer a família, ser apresentado e aceito pelos amigos dela... Depois de comprar flores, de contratar um violinista, de criar coragem, de aparecer no trabalho dela, se ajoelhar e fazer o pedido...

Como imaginar que isso ia terminar em um não, cacete?

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Aquele corredor parecia que não ia acabar nunca, mas acabou.
Pelo menos agora, no hall do elevador, as pessoas não tinham visto o que aconteceu e não olhavam com aquela cara nojenta fingindo que não achou engraçado o que viu, com aquele jeitinho hipócrita que diz "sinto muito! eu não vou sair contando do pedido de casamento frustrado para todo mundo que eu encontrar hoje, nem falar dessa sua cara de choro, tá?".

Aquele monte de g…

Passional

Bem de frente pra janela da sala onde eu trabalho fica uma árvore na rua. Uma quaresmeira.
Linda, toda cor-de-rosamente florida, a estampa perfeita pra uma roupa de verão da Frida Kahlo.
O ritual é o seguinte: Uma pessoa passa apressada pela rua. Três passos depois da árvore, interrompe a caminhada e fica parado olhando o nada por uns segundinhos. Calcula a própria vergonha, faz a divisão pelo desejo e decide.
Volta os três passos. Tira o celular do bolso. Arruma o cabelo sem dar muito na cara. Estica o braço. Sorri. Tira a selfie. Vai embora com a mesma pressa de antes.
Com a cara de que pelo menos o dia não passou em branco. Uma árvore cor de rosa lhe deu um pouquinho de alegria tão raro que mereceu ser fotografado.
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Numa das primeiras vezes que eu voltei pra casa dos meus pais depois de mudar de cidade, estava colocando a chave na porta para entrar quando botei reparo na plantinha no canteiro ali do lado.
Senti um misto de surpresa e culpa. Eu tinha esquecido que ela existia. Eu oficialme…

Direitos e polícias

Isso já faz vários anos.
Meu ex-mas-na-época-ainda-namorado estava fazendo aniversário e me convidou pra festa, um churrasco na casa da irmã dele. Primeira vez que eu ia conhecer a família dele, aquelas pressões todas. Ele me alertou: "Só não dá muita moral pro meu cunhado, que ele é um idiota."
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Quando chegou a hora da festa, sem conhecer muita gente, puxei assunto com um cara sobre um carro que estava estacionado e engatei num papo.
Uma cerveja. Duas. Oito. Ele era policial. Me contou como é difícil a vida na corporação, como sentia seu esforço desvalorizado e como se sentia humilhado de precisar trabalhar tanto para sustentar a filha pequena tendo que dizer não pra tudo que ela pedia.
Gente boníssima, o cara. Era o tal do cunhado.
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Na época eu trabalhava com Direitos Humanos. Mais precisamente, trabalhando pelo direito das pessoas privadas de liberdade.
Sim, eu sou daqueles que defendem bandido.
Direitos humanos simplesmente quer dizer que você concorda que todos devam ter igual…

No pequeno e no grande

"E por acaso esse motel
É o mesmo que me trouxe na lua de mel
É o mesmo que você me prometeu o céu
E agora me tirou o chão"

Duvido que uma parcela muito grande da população brasileira tenha encontrado o marido no motel com outra e oferecido cinquenta reais para ajudar a pagar a conta, mas essa foi uma das músicas mais tocadas do país no último ano.

Não é que a gente se conecte com a situação em si.
A gente se conecta com as sensações (de traição, de desamor, de dúvida) e entende muito bem a dor de quem tá cantando.

É que quanto mais íntimo é um problema, mais universal ele é.

Por isso que as músicas que mais fazem sucesso, os livros mais vendidos, as histórias mais pungentes são aquelas que parecem mais íntimas e mais pessoais.

O encontro da arte com a emoção acontece quando a gente vê no "isso só acontece comigo" do outro aquilo que a gente só achava que acontecia com a gente também.

Por isso que música de sofrência faz tanto sucesso (e sim, eu tô chamando a Naiara A…

Enxaqueca

Você já teve enxaqueca? Sabe como é?

Na definição padrão: "é uma dor, geralmente em um dos lados da cabeça, latejante ou pulsátil, que dura de 4 a 72 horas e pode vir acompanhada de náuseas e/ou vômitos, tonturas, intolerância à luz (fotofobia), barulho (fonofobia), cheiros (osmofobia) e movimentos (cinetofobia)."

Se homofobia também estivesse na lista, eu acho que entenderia melhor os Bolsonetes, porque essa definição não traduz nem de perto o horror que é uma crise de enxaqueca. Se você quer entender como é, pode deixar que eu explico.

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Quer dizer, é diferente para cada pessoa, mas pra mim a sensação é como a de um prego no meio da testa. Um prego que dá choques elétricos e fica se mexendo lá dentro e de vez em quando chama um amigo para entrar na minha nuca também.

Normalmente eu durmo e a dor passa, mas nem sempre é fácil dormir e nem sempre isso adianta.

Luz incomoda. Qualquer luz. Qualquer maldita frestinha. Se a própria Fada Sininho aparecer querendo te dar a juvent…

Estrutura

Você está no pior momento da sua vida.
Nada parece ter sentido.

O desespero é o maior assassino de preconceitos, e você toma coragem para marcar uma sessão de terapia. Pior não deve ficar.

Nervoso, ansioso e um pouco contra a vontade, você ocupa a poltrona que lhe apontam e olha pro desconhecido à sua frente como quem diz "Por favor, me ajude a não precisar mais vir aqui".

E o filho da puta do psicólogo não fala uma única palavra, como se estivesse tirando sarro da sua vulnerabilidade naquele momento.

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Muitos terapeutas fazem isso, do silêncio desde o começo, como uma técnica terapêutica.

A sua maneira de lidar com aquele desconforto inicial, a sua disposição de falar, tudo passa por aquele começo silencioso de uma sessão. É horrível, mas funciona - pelo menos em alguns casos.

Eu não costumo agir desse jeito. Sim, eu acho importante que o paciente peça claramente pelo que precisa. Mas será que vir até o meu consultório já não é uma maneira de pedir ajuda?
Ou ainda, será qu…