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Mostrando postagens de Março, 2017

Exigências

Eu sou um romântico.
(Romântico: uma pessoa que, por aparência ou gosto, não se dá bem com encontros casuais mas ainda quer ter relações sexuais ou cafunés com frequência.)
Como meu cupido tem TDAH, tenho uma certa estrada de microromances ou histórias de amor platônicas de três dias. Todo mundo na minha idade tem.
Quando mais novo, eu reparava que, quando acontecia de me enrolar com algum cara mais próximo dos trinta anos, todos eles tinham uma característica em comum: qualquer mancada justificava o fim do papo. 
Os que não tinham essa característica eram os desesperados por um relacionamento, ainda mais assustadores.
Se eu ficava dois dias sem conversar? Fim de papo. Se eu puxava assunto duas vezes no mesmo dia? Fim de jogo. Se eu penteava a franja pra esquerda em dia de lua cheia? Inaceitável. Nunca mais.
Machucados por experiências desagradáveis, eles decidiam cortar o mal pela raiz logo que ele começasse a aparecer, não importa qual mal fosse.
Eles não me pareciam felizes. Eu pro…

Elogios

Topei com um amigo que eu não via há mais de um ano. Colocamos o papo em dia:
- Pô, Flávio, que bonito que você tá! - Ah, brigado! - eu fico sem jeito com elogios, mas deixei ele continuar porque sou movido a elogios baratos. - Sério mesmo, cê emagreceu, né? - Na verdade eu até ganhei peso, mas tô tentando cuidar mais da alimen-- - Emagreceu sim! Sua barriga tá muito menor!
E começou a se empolgar no elogio: - E esse rosto, Flávio? Tá diferente!
Comecei a ficar desconfortável. Ele continuou: - Acho que é porque você emagreceu, tem bem menos bochecha que da última vez que eu te vi! Tá fazendo academia?  - Comecei a fazer cross-- 
Não me deixou falar: - Tá musculosinho! A postura tá melhor, tá andando mais reto!
Eu não sabia se ficava feliz pelos elogios ou de luto, já que eu não fazia ideia que eu era um corcunda bochechudo acima do peso.
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Elogiar uma pessoa exige certos cuidados. Nunca se sabe o que pode ser visto como elogio e o que pode machucar. Acho - e só acho - que detonar tu…

Divino

"Eu não acredito em Deus. Eu juro que eu queria muito, muito acreditar, mas eu não consigo, não existe razão para acreditar. Isso me faz sofrer."

Minha paciente estava com a voz angustiada.
"Não acreditar em Deus te faz sofrer?" - perguntei.
"Não. Ter passado tantos anos dedicando a minha vida a uma igreja me faz sofrer. Me iludiram. Eu sofro por decepção."

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"Problema mental é falta de Deus no coração", uns dizem.

Olha, eu tenho alguma experiência em fé.

Fui criado como testemunha de Jeová, depois me aproximei do espiritismo, frequentei a umbanda e estudei um monte de outras coisas.
Em algum momento, cada uma dessas filosofias me fez um pouco de bem - e cada uma delas me fez um pouco de mal.

Já hoje... Hoje eu não tenho uma resposta.

Às vezes eu faço uma prece pedindo pelo bem de alguém.
Às vezes eu tenho certeza que a vida se limita ao que a gente vê e que isso já é coisa pra caramba.
Às vezes eu vejo alguma coisa superbonita acontecer e pens…

Fanfics políticas

Fanfic política n.º 1: Tchubalula"Você não vai conseguir se eleger sem uma primeira dama, presidente."As palavras do assessor são dolorosas para Lula, mas ele sabe que ter alguém ao seu lado pode ajudar a descansar entre um momento de campanha e outro.Mas quem poderia ter carisma e saber admirar a beleza de um homem como ele?Pouco depois, ele conhece a Mallu Magalhães, que se encanta por aquele homão.Os dois vivem um romance tórrido.Marcelo Camelo volta a compôr bem.O Brasil prospera.
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Fanfic política n.º2: Pedaladas da PaixãoDiscretamente visitando o Brasil, Hillary Clinton avista uma elegante senhora andando de bicicleta."Foda-se", ela pensa, "não preciso mais me segurar em nada. Sou livre."O sentimento é compartilhado pela ciclista misteriosa, Dilma Rousseff. As duas se mudam para o Uruguai, onde cultivam hortênsias e alimentam patos. Duas mulheres, apaixonadas, vivendo a terceira idade uma na garupa da outra.
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Fanfic política n.º 3: Malhação President…

Suavignon

Venhamos e convenhamos, a gente não nasce tão inteligente assim. Se tiver sorte, a gente vai se sofisticando e aprendendo ao longo da vida. 
É essa capacidade de evoluir que permite que a morra diferente de como nasceu, é isso que deixa a gente se deixar de ser um adolescente que bebe Fanta Uva com vodka de garrafa pet pra virar um quarentão que faz bochecho com vinho e fala cabernê sovinhôun fazendo biquinho.
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Meu disco preferido aos quatro anos de idade era do Fofão.  Se eu não me engano, era um que vinha de brinde com o Caldo Maggi. Você comprava um número x de caldos e ganhava a oportunidade de contaminar seu filho com música infantil dos anos 80 e glutamato monossódico ao mesmo tempo.
Aos doze anos, meu gosto musical já tinha mudado.  Grudado na MTV, eu assistia uma estreia de clipe da Christina Aguilera com o mesmo encantamento que uma senhora católica com uma máquina do tempo assistiria a ascenção de Jesus Cristo aos céus.
Lá pelos quinze, eu me sofistiquei. Descobri as marav…

Academia e Terapia

"Eu tô fazendo terapia há cinco meses, e até gosto, mas não sei se está fazendo tanta diferença assim na minha vida."

Já ouvi isso de bastante gente e a dúvida é genuína.
Você é esforçado, vai à terapia toda semana mas ainda está esperando por mudanças na sua vida... Será que vale a pena continuar indo ou é melhor redirecionar o investimento? Ficar numa terapia que não deu resultado ainda ou usar a grana para umas cervejinhas a mais no fim de semana ou comprar umas roupas novas?

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A melhor maneira que eu tenho pra responder isso é fazendo uma comparação com uma coisa que muita gente faz.

Estar em terapia é como fazer academia. Olha só:

- Repetição é importante:
Sabe como, na academia, você repete o mesmo movimento muitas vezes antes de ficar com a bunda da Nicole Bahls? Na terapia é igual: você vai passar pela mesma questão várias vezes antes de ficar com a bunda da Nicole Bahls.
Falando sério: olhar para um mesmo tema de várias maneiras pode ser fundamental para entender o…

Schadenfreude

Olha, eu não sou nenhum gênio (não que alguém estivesse sugerindo isso), mas tem gente que me surpreende com a pouca inteligência.

Não digo mal informado, não digo mal educado, não digo com problemas cognitivos.

Digo de ter aquele cérebro disposto a fazer conclusões absurdas com coisas muito elementares.
De ter todas as informações ali, na frente, uma do lado da outra... e não conseguir deduzir o óbvio.

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Fui viajar pro carnaval. De ônibus, porque eu sou rico.

Me distraí da viagem escutando os dois adolescentes que conversavam no banco de trás, e não tive outra opção senão registrar a conversa que estava inspiradora demais.

Eles falaram de carreira:
"Já tem médico demais. Eu quero ser psicólogo. Você aprende a saber quando uma pessoa tá mentindo."
"Jura? Eu fui numa psicóloga uma vez e ela era muito ruim. Eu menti um monte e ela nem percebeu."
"Mas eles ganham bem, né? Eu fiz o cálculo, atendendo quarenta e quatro pessoas eles ganham quinze mil por semana!&qu…