23.2.18

Chapa Branca

Depois de anos escrevendo me veio o insight: puta merda, como eu sou chapa-branca.

Me surpreende o quanto eu consegui passar anos escrevendo evitando ao máximo cair em polêmicas. Até me orgulhei disso por um tempo, numa de "olha como eu consigo tocar em temas pesados sendo ponderado!".

Acontece que ser ponderado não estava trazendo benefício nenhum nem pra mim, que continuava sendo reprovado por vários leitores, nem pra quem lia, que dava de cara com uma opinião pasteurizada.

Sempre tinha alguém reprovando.

Eu fazia um texto com tom de brincadeira falando mal de hétero?
"Esse cara se diz psicólogo mas é um preconceituoso!"
Texto falando sobre depressão masculina?
"Eita, não dá pra confiar em macho mesmo, já começou a fazer desculpinha pra ômi!"
Texto com um tom otimista?
"Você não está levando em conta a realidade das coisas! Não é assim pra todo mundo!"
Texto com tom pessimista?
"Você tá se vendendo só porque tá na moda ter depressão!"

E eu só estava falando de coisas que eu acho, opiniões que eu tenho. Eu. Euzinho, pessoinha só, sem maiores pretensões de ser mais do que uma pessoa ou de formar a opinião de ninguém.

Não estava adiantando tentar comunicar mais claramente. Parece que tudo que eu escrevia já saía de fábrica com um disclaimer de "mas não é tanto assim, viu? não é assim pra todo mundo, inclusive o que é que eu sei, né? É só o que eu acho", e mesmo assim vinha chinelada.

Eu já estava ficando com medo de ter uma opinião.

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Isso de "tentar agradar todo mundo não funciona e ainda vai arrancar toda sua energia" é um pilar da minha prática clínica e um dos lemas da minha vida, e ainda assim eu estava caindo nessa.

Engraçado que não é a crítica que me incomoda. Podem achar o que quiserem de mim, podem xingar, não me importo com isso.

O que me doía era ver algum comentário como "Esse texto me magoou". Nada do que eu escrevo tem a intenção de ferir ninguém. Minha vida é dedicada a cuidar das feridas emocionais dos outros, eu jamais semearia isso de propósito.

Outros comentários eram com um tom de "Isso pode magoar alguém". Pode, claro! Tudo pode magoar alguém. Mas essa polícia já estava demais.

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Chegou a hora em que isso me deu um bode imenso. Fiquei um tempo sem escrever (pra sorte de quem me segue no Facebook). Pensei no que eu estava fazendo, no porquê de eu ter escolhido essa carreira, no objetivo que eu tenho ao escrever.

E eu precisei me perdoar por magoar algumas pessoas de vez em quando. Faz parte da minha exploração individual de quem eu sou me permitir entrar em contato com coisas pesadas.

Eu preciso ser honesto, eu preciso estar desarmado e eu preciso poder errar.
Falar besteira de vez em quando. Provocar um questionamento mais pesado. Falar alguma coisa que balança quem lê para que o que eu falo tenha algum efeito.

Não existe "provocar mudança" sem "provocar".

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Um dos próximos textos que vêm chama "Relacionamentos abusivos são ótimos", sobre como uma pessoa pode crescer ao passar como uma experiência como essa. Isso quer dizer que eu ache relacionamentos abusivos uma coisa maravilhosa? Não!  É uma hipérbole pra fazer a pessoa parar um pouco e ler uma opinião diferente sobre algo que costuma ser tratado sempre do mesmo jeito.

Se eu for colocar um título chapa branca só pra ninguém reclamar, eu perco uma boa parte do impacto que esse texto poderia ter, e boa parte do tesão que eu tenho em escrever.

Em algum momento as pessoas facilmente ofendíveis vão precisar aprender a pegar mais leve. Nem toda opinião diferente é um ataque, nem todo mundo que discorda é um inimigo.

Ainda não há - que eu saiba - registro de pessoas que tenham caído mortas de choque ao dar de cara com um texto no Facebook que diz algo que elas não gostam. E mesmo se houvesse, eu morreria de inveja da pessoa que escreveu um texto com um impacto tão grande.

Eu trabalho com psicologia porque acredito que o ser humano pode se desenvolver, crescer emocionalmente e ficar mais forte, e faz parte de tornar-se mais forte deixar de se ofender por qualquer coisa.

Caso ofenda ainda assim, conheço ótimos psicólogos para indicar.

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