21.2.18

Sobre a depressão masculina

Nenhuma mulher sofre do mesmo jeito que outra.
Há tantas depressões femininas quanto há mulheres, cada uma com seu sofrimento muito único, como um bordado feito a mão que é impossível de replicar exatamente.

Infelizmente, homens não são bordam.
Ou pelo menos não são ensinados a bordar seus sofrimentos de uma forma tão atenta quanto às mulheres. Depressão masculina há uma só, quase sempre percebida tarde demais, e devastadora.

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Um homem precisa de um grande projeto.
Talvez pelo passado de caçadores, os homens tendem a precisar de um grande foco para dedicarem toda a sua energia.

Repare ao seu redor como os homens costumam ser obsessivos:
É da mente masculina eleger uma prioridade para a vida por vez, e ela é perseguida violentamente.
O foco é o trabalho? Pois trabalho vai ser o nome desse homem. Serão quatorze, quinze horas por dia trabalhando, a saúde em frangalhos, o peso aumentando, o cabelo caindo. Nada mais importa.

Mais forte ainda quando um homem se apaixona. Que mulher nunca ficou confusa depois de ser o foco da paixão intensa de um homem para depois de se entregar ver essa intensidade esfriar? Não quer dizer que ele deixou de amá-la: é que ele passou para o objetivo seguinte.

É como se cada vida masculina fosse um projeto a longo prazo - e a cada vez que algo lhe tira dessa direção, a validade do projeto é questionada e, com ele, a validade da vida desse homem.

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Homens são - e isso foi testado em mil experiências científicas - menos adaptáveis do que mulheres. Demoram mais tempo para se encaixar a uma situação nova, para entender qual é o comportamento esperado deles e para adquirir o sentimento de capacidade dentro de uma hierarquia que não conhecem.

Numa metáfora bem Clube do Bolinha, pense num automóvel voltado ao público feminino, como uma minivan. O carro vai ser versátil, econômico, espaçoso, capaz de carregar crianças e tralhas, ao mesmo tempo em que tem um design diferente e é fácil de estacionar.

Agora pense num carro voltado ao público masculino, como um muscle car. O carro é só motor. O banco é duro, o interior é chocho, e nem fazer curvas direito aquilo faz.
Seu único propósito é seguir em frente com força.

Esse é o homem: muito motor, muitos cavalos, muito foco - mas quando esse motor tem um problema, toda a sua vida parece perder o sentido.

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“Um homem se humilha se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida e a vida é trabalho
E sem o seu trabalho um homem não tem honra
E sem a sua honra se morre, se mata
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”
 - Gonzaguinha

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A depressão masculina é muito marcada pela sensação de falta de sentido. Os homens em geral parecem derivar menos satisfação das pequenas conquistas. Essas lhe são quase invisíveis quando aquilo a que dedicaram todo seu foco deixa de existir.

Por isso tantos homens murcham quando se aposentam ou perdem o emprego, por isso tantos homens não conseguem se localizar no mundo depois do fim de um relacionamento.

Sem um objetivo, a força do homem fica estagnada, e uma grande força sem direção específica é o ingrediente principal da autodestruição.

Sem um foco externo, o homem se destrói. Fica agressivo, abusa do álcool, age de um jeito ranzinza e insuportável de ficar por perto ou, a cena mais triste, murcha no sofá e olha para a parede com toda a força que tem, esperando a vida acabar.

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Parece simples lidar com isso. Por que não simplesmente diversificar os interesses e diluir a obsessão masculina em vários projetos diferentes? Não é tão fácil: o foco em uma questão só é uma questão estrutural. Como fazer uma faca de um gume só cortar em várias direções?

Até acontece uma flexibilização, depois de muito tempo. Pode levar uma vida inteira, filhos, trabalho, relacionamento e uma série de trabalhos concluídos para que um homem consiga se aquietar um pouco dessa busca interminável por uma grande conquista por vez. Ainda assim, se reparar bem, é provável que ele esteja completamente neurótico cuidando do jardim. Nem uma graminha fora do lugar, nenhuma.

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“Não tem tempo pra gastar, não
Não me vê passar, não
Nada tira a atenção de um homem com uma missão”
- Leoni

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Então, como resolver o problema do homem depressivo?
Voltando ao básico. Aceitando que ser homem é caçar e que masculinidade é a busca constante de um grande ideal.

Se as depressões femininas geralmente exigem muito acolhimento e escuta, a depressão masculina exige encorajamento e responsabilização - e até uma bronca bem calculada, de vez em quando.

Dê a um homem um grande projeto e veja-o prosperar. Dê a ele o senso de que ele é capaz de conquistar uma grande coisa e veja como ele se ilumina e se prepara para aquela jornada.

Mais do que tudo: dê a ele a responsabilidade de fazer algo grande por si mesmo e veja como essa carga vai lhe fazer bem. Com essa grande responsabilidade virá um senso de valor e honra que pode recuperar a razão de existir dessa máquina masculina de dedicação intensa.

É um papo que parece antiquado, mas responsabilidade, honra e dignidade são valores essenciais para que um homem seja feliz.
Recuperando isso, pode deixar o resto com ele. Ele vai saber se virar.

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