5.3.18

Como estou dirigindo?

O painel de um automóvel revela ao motorista tudo o que é necessário saber para seguir uma viagem segura. Basta olhar para os instrumentos dispostos à sua frente para ter um panorama geral, desde a temperatura do motor até se os cintos estão propriamente afivelados, passando por saber quanto combustível ainda resta, até a qual velocidade se vai.

Um motorista parado à beira da estrada por falta de combustível chega a passar vergonha: a informação de que ele precisava reabastecer estava a um olhar de distância, e ele a ignorou.

Um bom motorista, então, é aquele capaz de prestar atenção aos sinais exibidos no painel de seu carro tanto quanto na estrada pela qual dirige. Assim, ele sabe tanto sobre sua condição para seguir em frente quanto sobre o caminho em si.

Como seria útil ter um painel de instrumentos tão completo dentro da gente!

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Um exercício simples de atenção: tente listar, na sua cabeça, quinze coisas que você está sentindo agora.

Algumas pessoas vão matar o exercício rapidamente, mas se você tem dificuldade para preencher a lista, vou ajudar um pouquinho:

Você sente o peso da roupa sobre seu corpo? Você sente a tensão dos seus músculos? O contato da sola do seu pé contra seu calçado?
O brilho da tela em que lê esse texto impactando seus olhos? Sua respiração? Seus sentimentos? O que está na sua memória? A música que está ocupando espaço e cantarolando na sua cabeça?
E as necessidades físicas? Está com fome, ou sono, ou sede, ou frio?

É muito simples saber mais a nosso próprio respeito, só não costumamos estar atentos ao nosso painel. Para saber como estamos, basta parar um pouquinho e sentir.

A informação está toda lá.

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Quanto menos estamos em contato com as nossas percepções, sensações e sentimentos, mais distantes estamos de cuidar bem do funcionamento da nossa vida.

Quantos de nós andamos exaustos dia após dia? Não é o nosso indicador de combustível que está falhando. O cansaço normalmente está bem óbvio, mas escolhemos ignorar esse sinal por acreditar que alguma outra coisa pode ser mais importante que a quantidade de energia disponível.
Então, em algum momento, quebramos e ficamos à margem da estrada.

Ignoramos também nosso indicador de temperatura. Podemos estar fervendo de raiva e agindo como as pessoas mais agradáveis do mundo.
O que acontece? Uma hora, fundimos. O motor superaquece e fica impossível seguir em frente.

O indicador de que é hora de uma revisão, então, vive sendo ignorado.

Por que escolhemos não olhar para sinais tão óbvios de como estamos funcionando? Porque estamos ocupados procurando sinais externos, que dizem respeito a uma necessidade nossa que é impossível de medir pelo lado de dentro.

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A necessidade de reconhecimento, atenção e carinho é taxada como vaidade e tratada como algo vergonhoso. Ai de quem assume em voz alta que quer sucesso para ser mais amado. 

Ainda assim, todo ser humano quer ser tratado bem e toma atitudes que lhe fazem se sentir mais digno de amor.

Infelizmente, não há um indicador dentro da gente que mostre o quanto somos merecedores do amor que buscamos. Precisamos buscar sinais disso do lado de fora.

O espelho mostra um rosto bonito o bastante?
As roupas são elegantes o suficiente para mostrar que não somos pessoas descuidadas ou, bate na madeira, pobres?
Os filmes que eu escolho contar que assisto são refinados o suficiente para que eu seja considerado inteligente?
Resumindo, eu sou bom o suficiente pra que gostem de mim e me tratem bem?

O indicador do valor próprio é construído por cada pessoa a partir de quesitos aleatórios que ela julga que os outros julgam importantes.

Uma pessoa desatenta ao que sente gasta muito mais energia em busca do preenchimento desses quesitos do que em satisfazer às suas reais necessidades, tão fáceis de perceber dentro de si.

Distraídos na busca desses quesitos, guiamos nossas vidas como carros sem óleo, sem combustível, sem manutenção preventiva e sem perspectiva de durar muito tempo sem quebrar.

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Na hora de cuidar da vida, é fácil esquecer que olhar para o painel é tão importante quanto olhar para a estrada.

Nos momentos em que o sentido não está claro e a angústia é de se sentir perdido, vale a pena mudar um pouco a pergunta padrão:
Em vez de "para onde estou indo?", experimente "Como estou indo?".

Como seu motor está funcionando? Onde você tem se reabastecido? Com combustível de que qualidade? Você está acelerando demais? Não está na hora de fazer uma limpeza geral?

Os indicadores estão todos ali. Basta ter coragem de diminuir a velocidade por um instante e olhar o painel.

Depois de uma boa revisão, até uma viagem sem rumo pode ser um passeio bem agradável.

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