29.3.18

Fenômeno

Até a leitura mais inútil pode acrescentar alguma coisa na nossa vida.
Estava lendo uma lista de artigos mais esquisitos da Wikipédia e um deles falava de um tal "Fenômeno de Mariko Aoki".

Nesse fenômeno, algumas pessoas tem uma forte vontade de defecar quando entram em livrarias ou bibliotecas.

Essa Mariko Aoki escreveu um artigo nos anos oitenta contando da sua atividade intestinal em bibliotecas e recebeu um punhado de respostas de leitores falando que sentiam o mesmo.

O artigo cita uma série de comentários de médicos e psicólogos que falam que o fenômeno é uma lenda urbana e que não existe.

Não existe o caralho, seus filhos da mãe.

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Vocês não fazem ideia de como eu fiquei feliz de encontrar esse artigo.

Desde sempre, eu não posso entrar numa biblioteca e caminhar um pouco que meu intestino subitamente acorda e começa a cantar "Jesus Cristo, eu estou aqui!".

Mesmo desconfortável, de vez em quando eu comentava com algum amigo algo como "Nossa, você não tem vontade de cagar quando vem na biblioteca?", e a resposta padrão era "Credo, não! Nada a ver."

Não era nem um acontecimento que me incomodasse tanto -- infelizmente eu não tenho andado por bibliotecas na frequência que eu gostaria. Ainda assim, como foi bom saber que aquilo que eu sinto realmente existe!

Biblioteca dá dor de barriga sim! Eu não sou louco!

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Pensar nisso me fez pensar em quantas pessoas vão de médico em médico com algum sofrimento e não são ouvidas.

Quantas pessoas chegam no meu consultório com problemas muito mais sérios que uma dor de barriga numa livraria e um histórico de gente dizendo que aquilo não é nada.


"Isso aí é drama!"

"Isso aí é normal!"

"Isso aí só está na sua cabeça!"

Como é cruel alguém que escuta a dor do outro e a desvaloriza. Seja uma dor pequena ou com fundo dramático, seja uma grande dor, TODO processo de cura começa reconhecendo que aquele sofrimento existe.

Toda melhora começa na escuta e na validação.

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Um experimento feito na Bélgica com pacientes de câncer separava os pacientes em dois grupos. Um, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro uma dose de remédio. O outro, ao reclamar de dor, recebia do enfermeiro a pergunta "Como é a sua dor?".

Cada paciente era ouvido com atenção e depois escutava o enfermeiro repetir palavra por palavra a descrição da dor que sentia. Então, vinha a pergunta: "Você acha que uma dose do medicamento pode ajudar?"

O grupo que tinha a dor ouvida pedia muito menos remédio do que os que apenas recebiam medicação quando reclamavam.

Quer dizer, nem sempre a gente quer a ajuda do outro pra resolver nosso problema. Queremos que alguém nos escute no momento solitário do sofrimento. Queremos o direito de sentir dor.

Negar a uma pessoa a validade do seu sofrimento é negar a essa pessoa o direito de existir integralmente.

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Dificilmente uma pessoa que procura terapia o faz por não ter recursos para mudar a própria vida.

A maior diferença que uma pessoa pode fazer é ouvir outra pessoa atentamente e dar a ela a sensação de que alguém a ouve.

Que o que ela sente é válido.
Que o que ela sofre é real.
Que ela pode existir em paz.

Que ela é normal e aceita... mesmo que ela sinta dor de barriga toda vez que entra numa biblioteca.

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