13.3.18

Number two

O que ninguém tinha me avisado sobre ter uma clínica de psicologia foi que as maiores manifestações da sombra humana não acontecem na sala de atendimento.

Não, o ser humano se mostra mesmo é no banheiro.

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Eu lembro da primeira vez que tive contato com alguma loucura banheirística de consultório. Eu ainda trabalhava na clínica-escola da faculdade, e quando fui lavar as mãos depois de ir ao banheiro, tive uma surpresa ao olhar na lixeira.

Alguém tinha feito o esforço de
a) esperar um momento de menor movimento na clínica para fazer suas necessidades dentro da lixeira; ou
b) pegar um cocô de dentro do vaso sanitário e levá-lo até a lixeira do papel toalha, pra compartilhar sua obra com o mundo.
c) sei lá, levar um cocô de casa no bolso, tipo quem tá com um papel de bala na mão e espera até a próxima lixeira?

Saí do banheiro surpreso e fui comentar com a minha supervisora, que respondeu, sem mudar de expressão:
"Temos um perverso entre nós, então? Normal."

Ah, tá. Simplesmente alguém cagou na lixeira. Normal.

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Aqui na clínica nós não temos orçamento pra manter uma pessoa na limpeza todos os dias, então a maior parte do serviço de limpeza é feita por nós mesmos.

Dos ítens que a gente compra, as coisas acabam na seguinte ordem:
1 - papel higiênico
2 - copos de água
3 - papel toalha

O que me fez concluir que as pessoas limpam bastante a bunda, bebem bastante líquido e lavam pouco a mão.
Desde então, tenho limpado o bebedouro com mais frequência.

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Agora, o que me surpreende mesmo é que - mesmo no nosso espaço pequeno - as bizarrices de banheiro continuam.

Eu abro a gaveta para pegar um refil pro sabonete líquido? Tem papel higiênico usado lá.
Eu vou dar uma alinhada nos vasinhos de flor de cima da pia? Tem papel higiênico usado lá.
Eu vou dar uma passadinha de pano com desinfetante de leve pra dar um cheirinho bom no banheiro? Tem duas piscinas olímpicas de urina atrás do vaso sanitário - e mais papel higiênico usado.

O que me incomodaria menos se eu soubesse que pelo menos as pessoas saem de lá com a mão lavada.

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Ainda assim não posso reclamar. Minha colega que trabalha numa instituição muito maior comenta que isso acontece todo dia.

Alguém faz cocô no vaso, mas não levanta a tampa do vaso.
Alguém faz cocô na pia.
Alguém faz cocô no chão e escreve "VIADO" na parede.

O papel higiênico usado me parece muito mais inofensivo.

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O que faz alguém fazer de um banheiro um lugar de perversão e sujeira?

Um banheiro coletivo é um dos poucos lugares capazes de unir o público e íntimo com tanta intensidade. O que se faz ali é completamente secreto, ainda que todo mundo vá lá pra fazer a mesma coisa.

Ter um intestino foi algo tão higienizado que a escatologia é quase criminosa. Ninguém peida, ninguém caga e ninguém tem dor de barriga. A Disney chegou a mudar o nome do filme "Coco" no Brasil pra evitar que um trocadilho com cocô impedisse as pessoas de ir ao cinema.

De tanto fazer parecer que ter um intestino é a coisa mais horrenda do mundo, é muito natural que alguém que deseje fazer algo que pareça horrendo escolha a escatologia como caminho. Nada combina tanto com o lado B quanto o número 2.

Garantida pelo anonimato da tranca do banheiro, a pessoa se permite cometer a travessura que ela jamais cometeria em público. Os banheiros públicos são a sessão de comentários de internet do mundo real.

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Claro que não é todo mundo. De trinta, quarenta pessoas que a gente recebe por dia, é uma ou outra que, de vez em quando, faz uma dessas.

Mais difícil é explicar o que acontece nos banheiros de posto de gasolina. Não há um banheiro de posto de gasolina de beira de estrada que não esteja coberto de merda até o teto. É uma mistura de perversão com a menina do Exorcista, só pode.

Deve ser por estar, além de tudo, longe de casa e em um lugar em que não se vai voltar tão cedo.

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Esses dias eu estava na fila do banheiro de um boteco quando um bêbado saiu da casinha aos gritos:

"Gente, eu caguei, mas eu caguei muito fedido. Vocês me perdoam?"
Ninguém respondeu, acho que porque ninguém perdoou. Ele continuou seu discurso em tom de palestra motivacional:
"Tá fedido, mas se cada um colaborar e cheirar um pouquinho, todos sobreviveremos!"

E talvez seja isso que todo ser humano quer: um pouco de companhia para lidar com as coisas da vida que não cheiram muito bem.

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Agora cês me dão licença, que eu preciso tirar uma pilha de papel higiênico sujo do armário do banheiro.

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