13.4.18

Pode incomodar

É tão frequente acontecer que eu até acho graça no sofrimento da pessoa bem educada demais.

Ela é uma fofa. Chega, cumprimenta, participa de longe, mas não se aproxima muito.
Não fica tempo demais na casa de ninguém.

Se você oferece um pedaço do doce que está comendo, ela diz que já comeu em casa, mesmo que esteja com o próprio Amazonas de saliva escorrendo da boca.

Ela recebe hóspedes e dorme no sofá da sala pra visita dormir na cama dela.

Esse é o jeito correto de viver, pensa ela. Ela é uma cidadã exemplar. Ela toma remédio pra gastrite.

Ela não incomoda ninguém.

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Eu rio dessa gente mas rio com respeito, porque eu sou igualzinho.
Cansei de passar vontade ou negar ajuda por achar que seria trabalho demais para o outro.

E é mais ou menos essa a sensação que a Pessoa Educada Demais tem o tempo todo: ela é um atrapalho, ela é um atravanco, e isso não se faz.

Ela gasta tanta energia tentando ser agradável, o cidadão-modelo de um mundo ideal, que vai parar numa crise de pânico.
Falta ar, falta energia, dá vontade de gritar e sair correndo.

Mas ela não grita nem sai correndo, credo.
Isso incomodaria os outros.

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Me interessa saber de onde vem essa ideia maluca de que não incomodar ninguém faz uma pessoa ser bem quista.

Quem fala isso obviamente nunca teve um cachorro na vida.

Por que cachorro enche o saco, né?
Se ele quer sair, vai ficar latindo e te arranhando até você pegar a coleira e levá-lo até a esquina.
Se ele quer fazer cocô e você não o deixa sair de casa, vai deixar um presentinho bem em cima do seu travesseiro.
Se ele quer carinho, vai enfiar a cabeça no seu colo, não interessa o que você esteja fazendo.

Um cachorro se recusa a fingir que não existe e que não tem necessidades.
A coisa mais triste do mundo seria um cachorro que não quer incomodar ninguém e fica no cantinho o tempo todo.

(e nem venham me falar que gato é assim, porque gato é tranquilo até o momento em que ele te acorda quatro da manhã com uma patada na cara porque está com fome).

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Ainda assim, todo mundo gosta de cachorro (menos quem não gosta, mas aí quem não gosta deles sou eu).

Isso acontece porque uma relação genuína é muito gostosa.
O cachorro pede as coisas com tanto carinho, com tanta abertura, e tem tanta gratidão pelo que recebe, de um jeito tão gostoso e tão honesto... Que ele conquista odireito de incomodar.

Dizem que filho é assim também, mas eu nunca tive um filho me trazendo uma coleira na boca pra saber.

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Não tô defendendo gente mal educada, longe disso.
Aliás, saio correndo de gente que fala alto demais, pede muito favor ou não percebe a hora de sair de perto.

Mas até essas pessoas tem algo a ensinar pra alguém que nunca se mostra por medo de incomodar.

Podar partes da gente pra não incomodar é jogar fora qualquer chance de uma interação genuína.
Você não cria conflitos, mas também não conhece o sabor de ser aceito. Ninguém nunca lhe conhece de verdade, só a fachada que você apresenta.

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Por isso minha nova meta é sair incomodando o máximo que eu posso.

Tá comendo e nem me ofereceu? Vou pedir um pedaço.
Tá saindo de carro na direção que eu tô indo? Vou pedir carona.
O livro que eu tô lendo tá mais interessante do que a pessoa que quer falar comigo? Vou pedir licença e continuar lendo.

Nada de ficar calado, eu vou é fazer esforço pra incomodar mais.

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"Mas Flávio, se todo mundo ficar desse jeito o mundo vai ficar insuportável!"

Só pra quem não sabe defender o próprio espaço.
Gente folgada incomoda todo mundo, mas incomoda muito mais quem não sabe dizer não. Questão de saber dar - e aceitar - limites.

Se todo mundo agir assim, pedindo o que quer e dizendo não para o que não quer, a convivência geral vai ficar muito mais fácil.

Afinal, até o cachorro mais dócil rosna quando não quer tomar banho.
Ainda temos muito o que aprender com eles.

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