9.4.18

Por que os sonhos importam na terapia?


Eu gosto muito de gente cética que procura terapia.
São pessoas extremamente racionais, que já leram muito, que não acreditam em qualquer coisa, que vão com um pé atrás para o processo terapêutico.

Em geral, essas pessoas torcem muito o nariz quando eu falo da importância de trazer relatos dos seus sonhos para a terapia.

Eles me olham como se eu fosse o Cigano Voight, leitor de tarô, interpretador de sonhos e ladrão de maridos.

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Mas não tem nada de místico em observar os sonhos.

A função do sonho é geralmente associada ao armazenamento de memórias. Por isso geralmente alguma coisa que vimos ou fizemos recentemente aparece no sonho. É uma manifestação visível de uma memória nossa sendo guardada.

Mas não importa só qual evento é guardado pelo sonho. Importa também em que gaveta das nossas memórias esse sonho é gravado.

Por isso é comum acontecer algum sonho como "Estava na minha antiga escola, mas o professor da minha turma era o meu chefe".

É bem possível que isso signifique que há algum sentimento relacionando o chefe (o acontecimento atual, a memória a ser guardada) ao ambiente escolar (a gaveta onde o inconsciente escolheu guardar a memória).

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Por isso que não pode existir um manual de interpretação de sonhos, e também por esse motivo a interpretação do sonhador é muito mais importante que a do terapeuta: é ele quem domina o território das memórias relacionadas a cada símbolo contido ali.

É através das associações que o paciente faz que vamos entender porque esse sonho foi guardar justo aquela memória bem naquela gaveta.

Pode ser que ele esteja reproduzindo com o chefe, por exemplo, uma dinâmica de poder que tenha aprendido na época de escola.

Assim, olhando pro que mais existe naquela gaveta da memória, é possível tratar o sentimento que ficou pendente daquela época e libertar o momento atual da influência daquele conteúdo que tinha ficado recalcado.

Aí, no decorrer de um processo terapêutico, essas associações vão ficando mais e mais profundas, e os efeitos dessa investigação mais libertadores.

É uma redução grosseira, mas dá pra entender a ideia.

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Quem quiser se aprofundar na ciência da interpretação dos sonhos, que é bem mais profunda do que descrevi aqui, vai precisar recorrer a vários autores com várias visões diferentes sobre o assunto.

Mas não adianta: nada é capaz de decifrar um sonho tão bem quanto a inquietude e a entrega criativa do próprio sonhador.

É um processo longo, árduo e profundo rumo ao próprio autoconhecimento.

E é justamente por me dedicar tanto a esse processo que eu passei o dia inteiro tentando entender porque diabos eu sonhei que tava cortando a unha do dedão do pé da Glória Maria.

Atualizo vocês assim que tiver notícias.

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