14.6.18

Alternativos



Tá, pobre que é pobre eu nunca fui.

De longe, mais sobrou do que faltou na mesa e eu nunca passei uma grande vontade. De onde eu vim até tinha um ou outro colega que pôde viajar pro exterior enquanto estudava, mas esse não era o padrão. Em boa parte dos colégios que eu estudei, algum colega aparecer com um tênis novo era a notícia do dia.

A primeira notícia do dia, pelo menos, porque a segunda era ver o colega chorando no canto depois de todo mundo correr pra pisar no tênis dele pra batizar.

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Também nunca sobrou grana.

Meus pais conseguiam me dar um celular, mas era um trazido do Paraguai com uma marca desconhecida. Eu conseguia um moletom legal, mas era na promoção de queima de estoque e vinha com o cadarço do capuz faltando.

Ainda assim, na realidade colégio-estadual-minha-colega-não-faz-educação-física-porque-só-tem-um-sapato, dava pra tirar uma onda.

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Dei meia dúzia de sortes e a vida foi melhorando. A grana entrou e hoje eu consigo comprar aqueles luxinhos que bastante gente tem. Dá pra comprar um celular bacana, dá pra comprar um notebook com uma maçã atrás, dá pra botar uma foto de uma fatia de bolo de quinze reais no Instagram de vez em quando.

Mas não é uma coisa fácil.

Se teve uma coisa que o cinto apertado me ensinou, foi a viver no custo benefício.

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Como não dava pra comprar o celular da propaganda na novela, eu aprendi a buscar na internet por outros modelos.

Qual o nome daquela marca que tá se firmando no mercado agora e vende a mesma quantidade de memória RAM e um processador alternativo-mas-que-funciona por um terço do preço? Porque era essa que eu descobria, e essa que eu desejava.

Meu sonho de consumo não era mais a calça que o modelo usava no outdoor, mas sim descobrir aquela lojinha numa rua escondida que vende umas calças bonitinhas a três por cem.

Eu arrumo o cabelo, mas o gostoso mesmo é alguém elogiar e eu falar "Guri do céu, você sabia que vaselina sólida é exatamente igual a essas pomadas de efeito molhado? E é oito reais um potão!".

Virou quase vício. Não tenho mais prazer na compra se ela não for uma barbada daquelas. Já até comprei coisas que eu nem precisava, mas que pareciam ter custo-benefício imbatível.

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Acontece até de alguém se assustar com a coisa que eu compro.

Outro dia eu até contei aqui da máquina de lavar que eu tinha comprado, que era toda diferentona e num modelo mais simples.

"Por que você não pegou uma Electrolux?", a pessoa pergunta, "Tá faltando dinheiro?"
O pessoal se preocupa, quase se prepara pra me chamar pra almoçar na casa deles se a situação estiver apertada.

Não é o caso.

É que eu vi a máquina por um preço melhor, toda esquisita, de-um-jeito-mais-simples-mas-funciona, e me vi ali.

Na gambiarra. Na coisa simples. No alternativo, que a riqueza não conhece mas que me atende bem. Talvez por eu mesmo ser assim, aprendi a gostar do esquisito e acessível.

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E esse sou eu, vivendo de alternativos.

Com um celular que não passa na propaganda, mas que me deixa cheio de orgulho quando alguém fala que a câmera é ótima. Com um sofá que parece caro, mas que me deixa feliz mesmo quando alguém pergunta quando eu paguei e eu falo "AMIGO, PEGUEI COM CINQUENTA POR CENTO NAS CASAS BAHIA!

Com uma máquina de lavar esquisita, mas que eu posso mostrar como funciona e me sentir especial não porque tenho o caro, mas porque tenho o diferente.

Tem um gosto diferente. Espero ter conseguido explicar.

Mas é tipo crescer comendo mortadela e não conseguir gostar de carpaccio. O paladar se forma diferente. Pra mim é mais gostoso, fazer o quê?

A gente sai da pobreza, mas a pobreza não sai da gente.
Que bom.

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