17.11.09

Bárbara

Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.

A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.

Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels (perdoem minhas metáforas, eu só tinha seis anos de idade e uns cinco de poesia - aliás, é muito difícil arranjar uma rima para Hot Wheels).

Enfim, Isabela era uma segunda opção simplesmente por Fernanda ser um avião, com sua beleza impossível de atingir. Uma miss em miniatura. Mas calma, estou me deixando levar pela emoção. O planejamento aqui deveria ser lógico. Então, na impossibilidade de Fernanda e eu casarmos antes de chegar a primeira série, Isabela seria o caminho a seguir.

Ela era magra demais. Era a garota com os menores peitos do jardim de infância. Ela usava sutiã. Isso me irritava e atraía. Por debaixo do uniforme da escolinha, uns fiapinhos de tecido cor-de-rosa. Nunca entendi isso direito. O que mais me atraía em Isabela eram suas bonecas. Barbies. Barbies magérrimas como Isabela era.

Mas se Isabela e eu nos divorciássemos, eu sabia que Bárbara estaria me esperando. Gordinha, esquisita, loiro-urubu nos cabelos. Minha mãe era gorda, Bárbara era gorda e maternal (aliás, nossa relação começou no maternal mesmo). Bárbara era minha última opção, mas seríamos felizes juntos. Ela e seu amor por mim, eu e minha recém-adquirida humildade e renúncia pelos desejos por beleza exagerada.

Minha única confidente nesses planos era Jandira, a empregada lá de casa, o carinho em forma de pessoa, pessoa em forma de rugas e pele maltratada. Jandira me esperava todos os dias com um copo de Nescau e um sorriso com dentes a menos.

Até o dia em que eu cheguei em casa e Jandira não estava lá. Minha mãe me explicou, enquanto eu olhava perplexo e também com dentes a menos, que o dinheiro estava difícil e que Jandira teve que ir pra outro lugar. Acho que mordi minha mãe, mas não lembro muito bem, tamanho o choque que levei com a notícia.

Nada que abalasse meus planos de casamento com Fernanda, ou quem sabe Isabela, ou ainda Bárbara se tudo desse errado. Até o dia em que eu saí da escola e encontrei Jandira no portão. Ela tinha voltado! Corri para abraçá-la. Ela disse que estava com saudades e que sempre lembrava de mim no emprego novo.

O emprego novo? Bárbara correu portão afora, também para os braços de Jandira. Mulher venenosa, tinha roubado minha babá.

Acho que foi por aí que eu me apaixonei.

Um comentário:

  1. Angela5:16 PM

    Well (que tal como rima?) my dear...
    As inteligentes sempre vencem...
    (Ela ainda tem as barbies?)
    Ah... sou repetitiva. Gostei muito, como sempre.

    ResponderExcluir

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abe...