21.12.11

Madrugadas


Nos momentos mais solitários e interessantes da vida, me vi obrigado a me entender com as madrugadas. Apenas um insone tem real noção do que é a eternidade.

Os dias, por mais monótonos que sejam, sempre tem algo que os diferenciem. Pode ser uma nuvem a mais no céu, um calor despropositado em pleno junho ou um carro que bate num hidrante e espalha água pela vizinhança, mas alguma coisa sempre distingue um dia do outro.

As madrugadas, não.

A temperatura, por mais que varie, nunca vai ser tão influente como o clima que só as madrugadas sabem ter. As horas – que na madrugada são consideravelmetne mais longas – passam com um ritmo de pêndulo em slow motion. O tempo vai e volta. Quanto maior a indisposição para o sono, mais lenta a noite.

Mais o corpo se inquieta querendo correr. Se a cabeça se engana e pensa que pode dormir, os joelhos resolvem pedalar e o oásis de sono chegando vai embora.

Um céu nublado não deixa a madrugada mais escura. No máximo, colore o teto do mundo de cinza.

Setenta e nove por cento da escrita humana foi desenvolvida durante a madrugada.

Não é por saudade da mãe que os bebês choram à noite. É por falta de saber lidar com a madrugada. (No útero é sempre noite, mas o bebê não consegue lidar com o fato de que a madrugada acaba. No fundo, ele sabe que o correto seria não acabar).

Crianças cuja concepção ocorreu de madrugada tem mais caráter.

Quem nunca sofreu de insônia prefere cachorros. Quem tem gato, tem madrugada na vida. O gato é a madrugada em forma de bicho.

Numa madrugada produtiva, um ser humano é incapaz de diferenciar se está em 2010 ou em 1958.

As dores de crescimento acontecem de madrugada. As lágrimas por amores que se vão. O gozo pelo amor que fica. O sonho do que ainda está para voltar.

O dia é para o trabalho. A madrugada é para a filosofia. Deus ajuda quem vive a madruga.

O dia é coletivo. A noite é para o casal. A madrugada, por sua vez, é uma experiência absolutamente solitária.

Os dias passam rápido, as madrugadas não passam jamais.

A manhã, quando chega, é a tristeza do insone. É como um maratonista que corre na direção oposta da linha de chegada.

A luz do sol que me perdoe, mas a madrugada é essencial.


E, como diria o Sinatra,


In the wee small hours of the morning
Is the time you miss her most of all.

3 comentários:

  1. Bárbara Amelize10:49 PM

    Bom te ler de novo.
    Sinto falta dos comentários abertos.

    De uma conhecida antiga.. dos tempos das garotas que dizem ni...

    Bons tempos.. mas, esses são melhores!

    Beijo

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  2. Anônimo10:58 PM

    Fazia tempo que eu não lia nada de você, nem tão bom!
    Parabens!
    Loy

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  3. tbm fazia tempão que não visitava teu super blog. E esse texto? Ótimo!

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