7.1.12

A Gretchen e Eu

Dizem os psicanalistas que para realmente se ouvir uma pessoa se faz necessária uma escuta flutuante, isto é, permitir que a mente percorra livremente as possibilidades de cada palavra dita pelo outro, sem se prender à linearidade do que está sendo dito.

Não sei se sou capaz disto. Flutuar exige uma ação, um certo domínio sobre a água. Minha escuta não flutua, bóia. Quando vejo, já estou em outra onda e não faço nem ideia do que a outra pessoa está falando. 

Talvez em uma clínica isso seja diferente. Talvez ficar boiando faça parte do negócio: seu paciente está falando sobre a mãe, você se perde num devaneio e só acorda quando escuta a palavra "Gretchen". Você pede pro paciente explicar melhor, ele tem um insight sobre como o amor de mãe é feito a bunda da Gretchen - também têm suas profundezas, dança conforme a música, não é o mesmo de vinte anos atrás - e pronto, você é o melhor psicanalista da paróquia.

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- Você não vai acreditar onde eu fui hoje! - disse meu amigo, como se tivesse acabado de voltar de Júpiter.
- Júpiter?
- Um show da Gretchen, Flávio! Um show da Gretchen! E você não vai acreditar...
- Foi bom?
- ...ela não tem uma celulitezinha!
Não respondi. Não sei o que ele queria que eu respondesse. Na falta de respostas, ele solta a punchline:
- Ela tem CRATERAS!

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Sempre achei a Gretchen uma mulher honesta. Sempre bancou ser uma bunda. Não peitos. Não um rosto bonito. Uma bunda. A primeira mulher-bunda da história brasileira. Uma heroína.

Hoje ela já não ostenta (ou sustenta) mais a bunda de antigamente, mas ainda ostenta (e se sustenta com) a bunda. Um pouco caída, mais cheia de ondulações que as dunas do Maranhão, uma bunda com uma história pra contar. 

Uma bunda de mãe, que a filha aprendeu tanto a admirar que preferiu não competir na mesma categoria. 

Tenho tanto desejo pela bunda da Gretchen quanto por uma mina terrestre, mas preciso admitir que é uma coisa admirável.

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Tudo isso porque a Gretchen lançou uma música nova e aproveitou sua última chance de tentar emplacar um trocadilho erótico. Ela faz "I'm cool" soar, ao mesmo tempo, como "Ai meu cu", como o grunhido de um porco e como a música dos anjos.
Na minha opinião, a música do verão 2012, e ai de mim se o Michel Teló me pega falando isso.



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Na verdade, tudo isso por uma questão ainda mais importante: Será que a bunda da Gretchen flutua?


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