27.3.12

Morcegos

Nunca fui uma pessoa muito cheia de medos, a não ser quando meu irmão me obrigava a ouvir Roberto Carlos de trás pra frente e eu saía correndo com medo de Satanás me abraçar travestido de Lady Laura.

Pra quem mora sozinho, ser pobre não é tão ruim assim. Você nem sempre tem grana pra almoçar, OK, mas pelo menos você dorme em paz sabendo que os barulhos que você escuta de madrugada não são de gente querendo assaltar sua fortuna. No máximo é barulho de cupim, e de cupim ninguém tem medo.

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E outra, eu moro em prédio (prédio-poleiro, minha mãe disse quando viu a quantidade de microapartamentos em cada andar). Em andar alto não tem rato. Mosquito é raro, se bem que eu tenho acordado com umas picadas vermelhas no corpo que eu não sei de onde vêm. (Será que é cupim roendo minha cara de pau?)

Assim, com pouco risco de ser assaltado (por ser pobre) e pouco risco de bicho (por estar no alto), eu não me incomodava muito morando sozinho a não ser quando a ocasional pomba se empolgava no vôo e atingia minha janela.

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Quinze minutos atrás começou a chover. Apesar da música boa no fone-de-ouvido, fui fechar a janela do quartinho (apesar do meu poleiro ser miúdo, ele tem dois quartos: um pequeno e o outro menor) pra não molhar a cama das visitas, um confortável colchão sem lençol com uma marca de mofo.

O que era apenas uma visita breve ao quartinho pouco utilizado virou uma odisséia. Chegando perto da janela, um monstro negro estava na cortina, todo encolhido.

Juro que de primeira achei que fosse uma aranha. Sei lá como, uma aranha gigante subiu pela parede e, pra chuva forte não a derrubar, teria se aconchegado na minha cortina.

Antes fosse uma aranha. Com uma aranha gigante, a solução seria fácil: morrer ali mesmo.

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Antes que eu conseguisse fechar a janela, o monstro negro bate asas e vem na minha direção.

Era um morcego. Enquanto eu emitia mais decibéis que um foguete prestes a alçar vôo atmosfera afora e corria, ele pousou no meu pescoço. Não faço ideia de como cheguei ao banheiro, arranquei o pano de chão e ataquei bravamente (tão bravamente quanto uma menina de seis anos de idade que vê uma barata) o monstrinho alado.

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Não reparei se ele estava vivo ou morto. Fui para o outro quarto e me preparei para a batalha. Fechei a porta o mais rápido que eu pude - pra garantir que ele não ia entrar na minha recém-declarada fortaleza de guerra - e me vesti com a melhor armadura que eu consegui.

A armadura consistia de uma blusa de inverno, que garantia que ele não ia tocar nos meus braços, costas e mãos. Na cabeça, vesti um calção, pra garantir que ele não atingisse meus óculos na tentativa de me cegar pra me matar mais fácil.

Quando percebi que, com o calção na cabeça, eu já estaria praticamente cego, resolvi enfrentar o monstro de cabeça limpa. Me armei com uma calça jeans - na minha cabeça fez sentido que ele morreria se atacado repetidas vezes com uma calça jeans.

Respirei fundo e fui guerrear.

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Desnecessário. O morceguinho se encolheu no chão do banheiro e morreu. (Quando digo que ele se encolheu, ele realmente diminuiu de tamanho. Estava com uns 10 centímetros agora, enquanto antes eu tenho praticamente certeza de que ele era maior que um albatroz adulto.)

Ainda não tive coragem de recolher o corpo. Joguei um pano de chão no defunto, para respeitá-lo.

Quanto ao quartinho, acho que vai ser fechado pelo tempo que eu ainda morar aqui. Tenho certeza que a família está hospedada lá, pronta para me matar quando eu ousar abrir a porta. Eles querem sangue - e nem é pra chupar.

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Lembrei da minha primeira (e única) memória de morcegos que tenho na vida.

Quando eu tinha uns doze anos, minha mãe me chamou no quarto dela. Sobre sua penteadeira, um morceguinho dormia calmamente entre aos frascos de perfume.

Achei a coisa mais linda da vida. Acho que meu pai até pegou ele na mão, como se fosse um filhotinho de gato.

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Quase desenvolvi ternura pelo morcego que eu matei, agora, da mesma maneira em que o filho do Eike Batista deve sentir ternura pelo cara que ele atropelou. Nossas histórias são parecidas: foi sem querer, uma coincidência, a vítima estava onde não deveria estar e, por uma infelicidade do destino, acabou morrendo.

Além disso, nossos pais são bilionários.

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Acabei de escutar um 'IIINCH' vindo do banheiro. Acho que o morcego voltou à vida. Tudo que eu precisava era disso: estar sozinho em casa e ser atacado por um morcego zumbi. Se antes ele queria sangue, agora quer o meu cérebro.

(Pra clarificar, IIINCH é o barulho do sonar emitido pelo morcego quando ele está prestes a matar alguém. Ele mede a distância da vítima em polegadas.)

Onde eu compro uma UZI pra me defender?

6 comentários:

  1. Monique8:06 AM

    HAHAHAHA! Você é o melhor, Flávio. Amei!

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  2. Um morcego zumbi??? Minha nossa....Acho que vou pensar melhor sobre a idéia de ir te visitar, Flávio...

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  3. Paulo Meirelles12:19 PM

    Consegui visualizar seu momento tragicômico do começo ao fim...Morri com a calça jeans na cabeça!..ahauauhauhauhua...

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  4. Boa Batalha!!!

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  5. Anônimo10:51 PM

    Meu Deus como vc é exagerado.rsrsrs...perdeu a oportunidade de ter um excelente bichinho de estimação morando aí...ótimo texto.....envolvente!!!!

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  6. Anônimo1:03 PM

    fai pra puta que pario o facebook e tambem quem criou e se site

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