6.6.12

Pagando o preço



Foi no meu segundo ano de curso de psicologia que tomei coragem e fui conversar com uma professora para perguntar se ela me indicaria uma pessoa da confiança dela que estivesse começando a carreira e topasse cobrar menos para atender um aluno bolsista sem muita grana.

No fim da conversa, com alguma habilidade dela, decidiu-se que ela mesma seria minha analista. Eu saí dividido daquele papo: uma parte minha estava feliz por poder fazer análise com alguém que eu admirava tanto, outra parte pensava CACETE, CACETE, COMO EU VOU PAGAR POR ISSO?

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De lá pra cá, com alguns apertos no orçamento e um emprego a mais no horário, aprendi uma grande lição: aprender a pagar o preço daquilo que é meu desejo foi mais do que a análise em si, que remexia no meu passado me ajudou.

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É disso que concluo que as mudanças pelas quais uma pessoa passa num processo terapêutico podem ultrapassar em muito os objetivos do processo terapêutico em si. Hoje, na clínica de psicodiagnóstico, somos requisitados a preencher uma ficha de triagem a cada paciente novo. Nesta ficha, os campos “Queixa do paciente” e “Expectativas do paciente”.

Não acredito que, se precisasse responder a essas perguntas no primeiro dia de minha própria análise, eu responderia “Sou incapaz de pagar o preço do meu desejo” na minha queixa. Minha queixa foi de que eu queria fazer aula de canto e não tinha grana nem coragem para tanto. Minhas expectativas do processo analítico? “Transforme-me numa pessoa incrível.”

Aliás, um dos motivos de eu ter procurado minha própria análise foi uma fala dessa professora, numa clara autopropaganda, falando “Quem faz análise fica mais rico, mais bonito e mais feliz”. Não estou mais rico, mas de alguma maneira meu dinheiro passou a ser suficiente para pagar pelas minhas aulas de canto, a natação, o aluguel de um apartamento melhor, camisetas e cuecas novas.

Não estou mais bonito necessariamente, mas a natação (que eu sempre quis fazer e não me permitia) e as roupas novas me ajudam a ter uma aparência muito mais interessante do que a do garoto do interior que achava ridícula a vaidade de quem queria se arrumar para os outros (que eu era antes da análise).

Mais feliz? Não sei se é possível medir felicidade, e também não sei se um nível alto de felicidade o tempo todo seria realmente bom de se ter. Estou, sim, menos dramático – e isso diminuiu um peso gigante que eu estava habituado a carregar. Peso a menos é ótimo, porque sei que o caminho pela frente ainda é longo.

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O que uma terapia pode fazer por um paciente que procura ajuda? São mil terapias que podem aplicar mil técnicas, podem utilizar uma escuta treinada, podem ajudar a botar pra fora muita coisa que se guarda à toa, podem acolhê-lo quando estiver perdido. 

Enfim, com a medida certa de química entre terapeuta e paciente pode se fazer muita coisa, mas nada será possível fazer sem que este paciente cumpra uma condição: estar disposto a pagar o preço.

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A não ser que o seu terapeuta cobre MUITO caro. Aí você pede um desconto.

Um comentário:

  1. MEU MAIOR MEDO EM FAZER TERAPIA,,,ERA CONHECER UM INDIVIDUO PIOR QUE EU ME VIA,,,,,,, EU PENSAVA JÁ NAO GOSTO-ME ASSIM IMAGINE COM UM TERAPEUTA, MOSTRANDO MEUS PODRES DESCONHECIDOS....

    MAS DEI A CARA A TAPA... PAGUEI PRA VER... E REALMENTE DESCOBRI UM NOVO HOMEM, UM SER FANTASTICO, QUE EU DESCONHECIA, CLARO Q ISSO NAO É REGRA, COM CERTEZA A PESSOAS Q DESCOBRIRÃO COISAS POUCOS CONVENCIONAIS DE SEREM DESCOBERTAS, MAS MESMO ASSIM VALE A PENA.

    NAO HA INDIVIDUO QUE NAO CARREGA INCRUSTAÇÕES DE UMA VIDA CHEIA DE DIFICULDADES, SEJA DE QUALQUER NATUREZA...

    POIS QUEM TEM VIDA FACIL, OU ASSIM ACHA Q É A SUA, ASSIM A VÊ, POIS NEM AO MENOS SE DÁ PARA VIDA, POIS É APENAS SE EXPONDO Q SENTIMOS A DIFICIL, MISSAO Q É VIVER...MAURICIO MARIOT

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