29.6.12

Vovô Vegano


Ontem assisti uma palestra muito interessante sobre sustentabilidade. A moça que coordenava a mesa de debates apresentou um dos participantes - um cara bonito, charmoso, que cumprimentava a todos como se fosse candidato a vereador - com toda uma ficha técnica que dizia que, aos 39 anos, ele já era reconhecido como uma qualquer coisa na sua área.

A fala dele era sobre o consumo de carne bovina por um enfoque ecológico. Basicamente, se a gente continuar comendo carne o mundo explode. Os argumentos eram todos ótimos, os slides informativos, mas nada me convenceu mais a parar de comer carne como a idade do cara. Porra, 39 anos e com carinha de 26? Mudo até meu nome pra Vegano Voight se for pra ficar assim. Depois disso, virar um vovô vegano com, no máximo, aparência de tio.

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Saí tão entusiasmado da palestra que quis virar vegetariano na hora. Vontade de salvar o mundo, né? E parar de comer tanta asneira. Quem sabe se eu fechar a boca pra mortadela e tomar menos leite por dia do que um bezerro recém-nascido eu fique com menos espinhas na cara e peide menos do que um Monza 94.

Tava aí meu novo objetivo de vida, me alimentar de grãos, frutas, verduras e ter cara de bunda de neném, pela primeira vez na vida e de uma vez por todas. A palavra de ordem: saúde.

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Hoje, um dia depois da palestra, me mantive razoavelmente saudável até o almoço, uma saladinha bem da modesta. Minha janta, pra compensar, foi uma lata de Pringles-genérico-vindo-da-China-por-quatro-e-cinquenta e três pacotes de pão de mel coberto de chocolate (porque comprando três você paga o preço de dois!).

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É difícil tomar decisões definitivas na vida e manter o entusiasmo. A distância entre o “poxa vida, que ideia legal” e o “tô fazendo” é a maior já conhecida pelo homem.

Outro dia um cara atravessou as quedas do Niágara dos Estados Unidos até o Canadá caminhando sobre uma corda-bamba. Um monte de gente estava ao redor, fotografando e torcendo (para que ele caísse). Me surpreendi com o fato de ninguém ter mirado uma pedra bem na cabeça do caboclo pra ele deixar de ser besta.

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Estava com meu ukulele no colo e percebi como eu não tenho a menor capacidade de escrever uma música no momento. Já pensou como seria incrível escrever um disco com minhas ideias, e botar meus dois anos de aula de canto em prática, e quem sabe tocar um coração ou dois?

Mas se com dois anos de aula eu ainda não sou capaz de cantar direito - quanto mais em público - quem garante que vai dar tempo de fazer isso?

Sei lá se é uma questão de tempo, também. Tudo o que eu mais tive essa semana foi tempo, com férias da faculdade e estágio em meio período. Fiquei horas em casa olhando para a parede e tentando arranjar alguma coisa que me divertisse.

Me pergunta se eu lavei a louça: eu não sou doido, vai que alguém me joga uma pedra na cabeça e eu caio no vidro dos pratos?

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Aí eu volto pra minha vida saudável.

Pode ser que essa semana eu não consiga melhorar um pouco meus hábitos, mas quem sabe com um pouco mais de esforço eu consiga depender menos de açúcar e ter mais força de vontade. Talvez eu até consiga criar a coragem pra botar minha voz pra fora, quando tudo o que acontece comigo fica girando aqui por dentro. Se eu conseguir comer só alfacinhas e soja e ser feliz, eu fico com cara de 26 aos 39. Até chegar lá, eu escrevo um disco.

Mas até me entusiasmar com o futuro, preciso digerir o monte de batata frita e chocolate que eu comi. Jesus-vegano que me dê forças.

Um comentário:

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