2.7.12

Das coisas que ficam turvas


Das páginas que amarelam, das folhas que brincam no chão, tudo envelhece e perde-se de corpo. O físico se esvazia, mas não perde a história de seu dever cumprido.

O que as páginas gravaram é perdido das páginas, mas não da tatuagem que fizeram na pele virgem da cabeça de quem leu.

O ar é poluído outra vez depois do trabalho incansável da folha sob o sol para purificá-lo, mas não fosse a folha, hoje morta, não teria sido possível respirar. Não estaríamos aqui, se não fosse pela folha-cadáver que hoje reveste crocantemente o chão.

Das coisas que ficam turvas sobraram seus olhos - ainda pálidos pelo pouco tempo que tem. Não se perdôe de sua juventude, moço. Logo os olhos enegrecem, e aos poucos os cenários não tem mais a mesma cor de outrora - talvez pelo hábito de sempre ver a mesma cor, sempre ali, vibrantes, enquanto nós, imóveis, permitimos que o olhar apague, aos poucos, o seu vigor.

As cores se perdem de dentro para fora, sempre, e então mesmo as páginas recém impressas vão ficando amarelas - não pelo tempo que elas guardam, mas pelo tempo que os olhos carregam.

--

Ainda assim, quando seus olhos ficarem turvos e toda cor for um tom de pastel, serão capazes de lembrar da cor dos meus - assim como os meus guardarão sua cor, viva mesmo quando a própria vida estiver desbotando, com um período e outro de rubrez intercalando a transparência das lágrimas.

E das páginas que guardam nossos olhos, e das folhas que nos deram o ar, a história se completa na nossa finitude e nossa tãopouquice.

O que se amarela e se perde é inevitável, é a resistência o que machuca.

Por isso solto tudo que tento impedir. Que as folhas caiam, que as páginas amarelem. Que meus olhos ceguem, se for o caso de assim ser.

Fica um pouco de tristeza pela história acabada, mas não dor - nossa história não acabou violentamente. Apenas perdemos o viço, meu amor.

Mas guardo seus olhos comigo, em cores vivas.

O resto é inevitável.


-- “A vida segue em frente, quer ajamos como covardes ou heróis. A vida não impõe outra disciplina além de aceitá-la incondicionavelmente. Tudo aquilo para o qual fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos é capaz de nos derrotar no final. Aquilo que nos parecia asqueroso, doloroso, mau, pode se tornar uma fonte de beleza, alegria e força, se encarado com uma mente aberta. Cada momento é de ouro para aquele que possui a visão de reconhecê-lo como tal.” - Henry Miller, tradução minha. --

Um comentário:

  1. Anônimo2:15 AM

    Nunca vou te esquecer...
    Na minha agenda de páginas já amareladas estão,como em um diário adolescente, as folhas secas que juntei do chão e guardei entre as memórias mais queridas...
    Assim sei que mesmo cego posso ainda tocá-las...
    Memórias que quero carregar pelo resto da minha vida...
    Cada beijo foi lindo...
    Cada minuto eterno...
    Cada escrito seu me toca senhor amigo das palavras...
    Estou cego, mas meus dedos perfeitamente esta mensagem....

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