29.10.12

Abstinência


Foi o Freud o primeiro a prenunciar: Você vem fodido do berço. Não importa o que você diga que faz, acaba sempre reproduzindo o modelo que teve nos seus primeiros anos de vida. Se os seus chefes são sempre filhos da puta, se suas vizinhas do andar de cima sempre andam de salto pela madrugada, alguma coisa nisso é reprodução do modelo dos seus pais.


Você deve ter procurado, inconscientemente, por um apartamento com uma vizinha barulhenta porque morava em algum lugar assim na infância.

Nada de mágico: a gente só procura viver de acordo com aquilo que reconhece. Se na nossa infância e adolescência passamos por uma família sempre em guerra, é apenas a guerra que nós conhecemos intimamente. Todo o amor que chegou até nós foi engarrafado em pequenas doses de violência, e é esse amor que nós vamos procurar – justamente porque não conhecemos outro.


Minha família é uma família comum, cujos papéis se repetem em várias outras, e tem um histórico de fugas: um pai viciado em trabalho (o que é visto como uma coisa maravilhosa, mas é um vício e faz mal como qualquer outro), uma mãe viciada em comida e um irmão viciado em drogas.

Fora um momento ou outro de exageros frequentes na bebida, meus vícios costumam ser mais discretos, apesar de não menos danosos. Demorei para perceber que todo o tempo que eu passava escutando música, lendo compulsivamente ou com a televisão ligada não era nada mais do que uma tentativa de escapar do silêncio. Uma tentativa de fugir de alguma coisa.


Pode até parecer esotérico demais, mas eu acredito que a vida tenha suas maneiras de dizer para a gente o que é que necessário para a vida não resvalar na bosta completa. No último mês estragaram quatro fones de ouvido, dois celulares e dois notebooks na minha mão.

Me vi obrigado a ficar algum tempo sem ouvir música o tempo todo e sem passar horas na internet todos os dias. Abstinência forçada. Internação compulsória.


Era como se algo me dissesse que eu precisava me afastar um pouco dessas coisas. Ouvir o que o silêncio tinha para me dizer. Duas coisas: 1 - a minha produtividade aumentou muito e minha louça nunca foi tão bem lavada e 2 – eu não me dava conta de como eu era solitário.

Ficar entretido em música e livros era uma ótima maneira de ver como eu sou distante das pessoas – mesmo de que meu considero mais próximo.


Onde a gente mais reproduz os padrões da nossa família? Nos relacionamentos amorosos, diria o velhinho do charuto.

Não sabemos o que o Freud passou quando criança para gostar de dar tanta notícia ruim, mas sabemos que ele destruiu seus diários onde relatava a infância. Sua mãe não devia ter sido muito boa bisca.


Uma das queixas mais frequentes que eu já ouvi, de tantas pessoas diferentes, foi “Ninguém me quer”. Pouco tempo depois, a mesma pessoa conta que conheceu alguém que lhe queria – mas que essa pessoa não era tão interessante assim.

Querer quem nos quer é fácil demais. Cadê o desafio? Cadê o precisar ligar todas as noites em busca de uma notícia, pra dizer pra alguém sonolento o quanto você o ama?


Até que a pessoa se revolte com a própria situação e inverta completamente o jogo: passa a ser o elemento refratário no relacionamento, e o outro que corra atrás. Isso funciona, a outra pessoa quase sempre também troca de papel e passa a ser o que busca desesperadamente o afeto.

(quantas vezes você ouviu/viveu a história de alguém que vivia reclamando de um relacionamento morno e, depois de levar um pé na bunda, passa a sofrer perdidamente pela pessoa que o abandonou?)

A questão é que isso não resolve nada, o relacionamento fica exatamente igual. Você só parou de imitar sua mãe histérica para começar a imitar o seu pai obsessivo.


Acredito que uma série de relacionamentos que dão errado são como os mil fones de ouvido que eu quebrei: um aviso. Uma dica da vida, falando: “vai fazer outra coisa, que isso aqui não vai dar certo por muito tempo”.

O problema é decidir o que fazer de diferente depois. Achar um equilíbrio entre ouvir música o tempo todo e se privar da chance de dançar. Entre ser o que procura (desesperadamente) o amor e ser o que está disposto a dar (desesperadamente) amor.

Mas são vícios: é difícil achar uma maneira de abrir mão do que a gente faz tanto e com tanta frequência, sem trocar por um vício pior. É preciso obstinação e a capacidade de entender que a recaída é normal.

E que, quem sabe, com um pouco de foco e paciência, você arranja alguma coisa melhor.


Por isso que eu acho que provavelmente a pessoa mais feliz do mundo é órfã. Não tem padrão familiar nenhum para imitar e seu cônjuge não tem problemas com a sogra.

Se bem que o padrão familiar pode ser o de morrer cedo. Pobre da viúva. Garanto que não tinha pai, também.


Um comentário:

  1. Eu tenho medo do que pode acontecer se eu perder minha conta no World of Warcraft.

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