28.12.12

Como cometer suicídio

Nos meus tempos de adolescente obrigado a ir para a igreja, eu não sabia o que era pior: assistir os discursos prolixos que vinham do púlpito ou esperar a boa vontade dos meus pais de irem embora depois do culto.

Eu ficava em pé, olhando as pessoas se cumprimentando e torcendo para ir pra casa logo. Não era fácil fazer amigos da minha idade naquele ambiente em que, se eu comentasse com alguém que eu batia punheta de vez em quando, eu seria 'denunciado' e uma reunião seria feita - com todo o amor cristão, é claro - para debater meus hábitos sexuais com a Bíblia na mão.

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Foi mais ou menos nessa época que uma família nova se mudou para a nossa congregação. Um homem mais velho, oriental, afetuoso apesar da aparência rígida, sua esposa, uma mulher cuja permanente poderia ser vista da Lua, e três filhas.

Foram se tornando amigos da minha família. Com a proximidade, veio a descoberta que o pai da família era afetuoso sim, mas só com quem não era da família. Para cada filha, ele tinha um assobio diferente - e ai da filha que não respondesse quando era chamada feito cachorro.

A filha mais velha era de um outro casamento da mãe, que, ao ver o marido cair doente, precisou dar um jeito de sustentar a filha recém-nascida. O jeito? Largar o marido no hospital e casar com o primeiro homem com dinheiro que lhe desse atenção.

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Não poder falar o nome dessa filha mais velha, que se tornou minha amiga, me incomoda. Mesmo assim, prefiro preservar a família, porque essa é só a versão que eu fiquei sabendo da história. Pode ter sido tudo completamente diferente. Isso é só o que eu imagino a partir do que eu vi de longe.

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Acabou que essa menina, que era tratada ainda pior que as outras por não ser filha de sangue do novo marido de sua mãe, virou uma amigona minha. Passávamos os momentos antes-e-depois das reuniões religiosas conversando besteiras de adolescente: nada profundo, mas eu não estava mais sozinho.

Depois de alguns anos na minha cidade, mudaram-se todos para o Japão. Minha amiga foi contra a vontade, seguindo a maré da família. Arranjou um emprego de doze horas por dia em uma fábrica. Lá, meio perdida, encontrou um rapaz e - para poder se libertar da família - casou-se com ele.

O resto da família fez algum dinheiro e voltou para o Brasil. Minha amiga ficou por lá.

Poucos meses depois, seu marido encontrou seu corpo pendurado pelo pescoço no lustre da sala.

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Fiquei sabendo dessa história casualmente, pela minha avó, que contou do suicídio da minha amiga no meio de uma roda de chimarrão, como se fosse uma curiosidade qualquer.

Se hoje eu parar pra contar, devo ter perdido uns quatro ou cinco amigos de adolescência para o suicídio. Alguns eram mesma religião que eu era, alguns não. Todos eram muito sensíveis e generosos. Talvez eu tenha sobrevivido por ser covarde, talvez por ser menos generoso (no sentido de me importar menos com agradar os outros).

Todos tinham uma sensação enorme de falta de sentido. Uma falta de sentido tão grande que gera culpa de estar vivendo sem saber porquê, culpa tamanha que gera essa pena de morte auto-imposta.

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Culpa que eu também sinto, um pouco. Por ter deixado minha amiga perder o contato comigo. Por não ter estado perto para ouvi-la reclamar da família, do Japão, do trabalho e do marido. Por não poder estar do outro lado do mundo para abraçá-la quando ela precisou.

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É difícil botar um fim num texto que conta uma história que acaba de um jeito tão difícil. Não é fácil botar fim nas coisas que ficam em aberto.

Então o texto fica em aberto caso alguém encontre o texto procurando pela frase do título no Google: se você estiver pensando em terminar a sua própria vida, procure algum tipo de ajuda. Procure um amigo, um parente, e desabafe. Se não tiver ninguém com quem desabafar, procure um estranho. Ajuda pode vir dos lugares mais surpreendentes se você estiver disposto a procurá-la.

Se não encontrar ninguém, procure um profissional, um centro de valorização da vida, qualquer lugar. Ou me mande um e-mail.

Mas saiba que alguém se preocupa com você - mesmo que seja no outro lado do mundo.

9 comentários:

  1. Anônimo4:32 PM

    E provavel ela sofresse abuso fisico do proprio marido, pelo que sei foi a sofrimento escondido e solidao nao religiao q levaram a isso. Se é que tirar a vida tem alguma justificativa.
    Ta ai procurar ajuda sempre.

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  2. Anônimo9:41 AM

    Você a não gosta de ouvir a palavra de deus eu tinha 6 anos quando fui para igreja sozinho jesus esta voltando arrependendo vocês pode ser salvo jesus ti ama a igreja e sor duas horas divia ter mas vocês devem esta pensando porque estou na internet não e só porque a pessoa e evangélica que não pode fazer essa coisas pode sim o que não pode e deixar de amar deus agora mesmo eu vou para o cinema tem que amar jesus a tantas histórias para ser ouvida pense bem não leve a raiva jesus ti ama vá para igreja e preste atenção

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  3. Anônimo9:26 AM

    E gostei
    Muito bem

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  4. Anônimo10:39 PM

    Eu estou muito triste, penso nessa hipotese!

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  5. Muitas vezes pensar em terminar com a vida parece ser a melhor solução de acabar com os problemas. Quem tem certeza disso? É como mudar de cidade onde os problemas te acompanharão talvez ainda piores, pois a solidão corrói o ser humano. Por impulsos pensamos ou tentamos acabar com nossa vida, mas seria justo terminar o que poderemos mudar? O futuro é de nossa responsabilidade, e podemos fazer grandes mudanças em nossa vida. As vezes pode parecer impossível, mas basta começar que a força vem. A ajuda de amigos, parentes, ou mesmo um profissional é de grande importância. Não existem muitas técnicas, o desabafo é uma ferramenta muito potente, a palavra é capaz de curar os males da alma. Independente da fé, até mesmo uma igreja, um grupo de jovens, o entrosamento com pessoas que podem dar força, pessoas que compartilham o bem. Ouça...pense...reflita...as palavras tem o dom de curar a alma em chamas.
    Um grande abraço.

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  6. Anônimo2:45 PM

    O texto me ajudou a ter certo conforto. Obrigado.

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  7. Anônimo7:30 PM

    O PIOR e quando vc ja nao ve mais saida, nao tem ninguem, nem consegue sair da prisao do pensamento critico. Preciso sim de ajuda mas tenho medo ate das pessoas!E tao humilhante ver pessoas que gostariam de estar no meu lugar, gostariam de apenas poder caminhar ou ate enxergar, tenho saude, mas estou sozinha sou fraca nao vejo motivos para estar aqui. Sinto na alma o verdadeiro sentido da palavra solidao!

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  8. Gostei do texto, eu precisava ler isto hoje...Estou vivendo sendo sufocada...

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  9. Eu precisava ler isto hoje, estou me sentindo sufocada por causa da religião.

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