23.4.13

Comprometimentos


a vida da gente 
é sempre um transtorno
é seguir em frente
e fazer o contorno
é fundir-se torrente
e cair-se em um torno
passar frio e o calor 
pra encontrar-se no morno

e se esquenta, e se esfria 
e se fica contente
porque a vida da gente
é um bolo no forno:
metade partida, metade retorno

Me assusta um pouco ver como meus amigos de infância já estão quase todos casados. Vários já tem filho e alguns já estão no segundo da prole. Tudo bem que eu posso não estar tão maduro quanto eles e que nem todos passam pelas fases da vida ao mesmo tempo. 

Ver meu vizinho que comia minhoca (enquanto eu comia areia) já no terceiro filho, se dividindo para comprar fraldas e pagar a parcela do carro, enquanto pego o ônibus rumo a um apartamento vazio, me faz pensar.

Admiro quem tem esse tipo de comprometimento. Sim, depois de se decidir exatamente o que se quer, em geral a gente encontra recursos pra fazer o desejo acontecer. Dá-se um jeito. A decisão é que é difícil.

Nem sempre o comprometimento vem a partir de uma escolha consciente. O primeiro filho pode vir por acidente. O segundo filho também, vá lá, mas o terceiro antes dos 25 já é efeito colateral da minhoca.

Você dá mais um passo e acaba financiando um carro em 60 parcelas, porque são três filhos pra carregar de um lado pro outro. Compromissos a longo prazo que me assustam porque, honestamente, me parecem loucura de se carregar tão cedo na vida.

--

Não que eu não me comprometa. Aliás, estou numa fase de terminar muitos comprometimentos que eu fiz: final de faculdade, sair de emprego depois de fazer o possível pra ficar por lá, terminar um namoro no qual eu era dependente demais.

O problema do comprometimento é que ele te amarra numa situação e impede outras possibilidades. 
O problema de não estar comprometido com nenhum projeto é que as possibilidades te soterram. 
O problema das possibilidades é que elas só vão pro real quando você se compromete. 

--

Não julgo os meus amigos que estão casando e tendo filhos, numa idade em que eu não me comprometo nem com um cachorro por medo de precisar abandonar o bicho depois. 

Também não me julgo por não saber muito bem o que é que eu vou fazer da vida. Tem horas que é melhor não saber mesmo, e caminhar às cegas pode resultar num acaso feliz. 

Talvez eu demore a me comprometer porque me comprometo demais quando decido. 

--

De qualquer modo, acho que estou evoluindo nesse sentido. Não sei nem se vou morar na mesma cidade daqui a três meses, mas negociei o cartão de vale transporte da minha amiga (que não gastava as passagens por ir trabalhar de carona).

São quinhentas passagens, que eu vou comprar a preço menor do que os 2,85 que se cobra em Curitiba. É, no momento, o maior comprometimento da minha vida. Minha maior dívida. 

Não chega a ser, assim, um filho. Mas já é alguma coisa.

E enquanto meus amigos financiam seus carros, eu financio minha liberdade. 
De ônibus, sim. Nada que me comprometa.

2 comentários:

  1. eddie9:19 PM

    ótimo texto, ótimas comparações...

    e de fato, a minhoca devia ter algo...

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  2. A atitude mais, comum, eh a de achar, que a felicidade esta num companheiro romantico,
    ou em filhos, ou em um cachorrinho, gato ou periquito,

    ### a felicidade, ou realização, mora, em nossa, mente,
    e para, constituirmos, uma mente, sadia, livre de mazelas, e disfunções, e rica em experiencias, requer tempo, requer vivencia,

    ### Meu filho, herdara, muito mais, que minhas semelhanças, herdará, minhas inseguranças, minhas dificuldades, herdara minhas disfunções,

    ### acredito que se a evolução tivesse criado um mecanismo, ao qual os humanos apenas tornariam-se férteis, apos uma maturidade e sanidade mental, o mundo, seria mais justo, as crianças, mais felizes, o arco iris, ano seria, tao opaco


    Mauricio Mariot

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