26.5.13

O Sobrevivente Dependente

Você é um sobrevivente. Pode assumir, você tem orgulho do que fez na vida. Você enfrentou sua família, a sociedade, os seus medos. Vez após vez, você encarou a solidão em busca de um objetivo e conseguiu. Você olha para o passado e sorri. Você é foda.

É fácil arrotar as conquistas do passado como se elas fossem medalhas de uma aquisição impossível de perder. Olhar para a vida, ver quantas vezes você foi corajoso e arredondar para cima como se isso fosse definitivo: "Eu sou corajoso".

Sobreviver dificuldades é o melhor combustível para o otimismo. Você olha para os obstáculos que já superou e percebe que isso pode se repetir.

Você fica com uma perspectiva bonita. "Sobrevivi ao que eu achava que seria impossível, não sobrevivi? Então, não importa o que continuar vindo de pedrada na vida, pode vir, eu aguento."

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Nada é tão bom para destruir uma certeza como um coração partido. As pessoas mais fortes e corajosas que eu já encontrei foram, ao mesmo tempo, as mais carentes.

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Ter passado por situações difíceis te fez perceber a força que tem, mas também desejar não precisar usar essa força o tempo todo. Desejar que alguns momentos da vida não sejam tão complicados, permitir-se ser frágil.

Aí aparece alguém com quem você se sente capaz de demonstrar fragilidade. É uma coisa tão maravilhosa que você mal percebe que despejou uma caçamba de vulnerabilidade na outra pessoa, e que esse peso é difícil de carregar, mesmo com todo o amor do mundo.

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Foi tão difícil se abrir com alguém, que você passa a tolerar quando a pessoa ultrapassa um limite seu. Afinal, é mais fácil se tornar mais elástico com alguém do que perder a única pessoa com quem você é capaz de mostrar seu lado vulnerável.

Você começa aceitando falhas - ótimo -, começa a perdoar defeitos - muito cristão da sua parte, parabéns -, e termina engolindo traição e mentira - e se perguntando se isso compensa.

Concessão após concessão, você percebe que não sobrou mais nada de seu em você. De repente, você está implorando pela presença de alguém que - olha a ironia - se apaixonou por você por você ser independente.

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É quando o amor passa a ficar cheio das matemáticas: "Vou sumir por um tempo para ele sentir minha falta". Você some e a pessoa não sente. Você cede outra vez, procura novamente o seu amor, e reforça a sua dependência da pessoa. "Não sou capaz de ficar sem", você pensa.

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Finalmente você percebe que do jeito que está não está mais funcionando. Você decide botar um fim na história. Você termina o relacionamento, chora três oceanos e consegue se afastar. Percebe que, quem diria, você até que consegue ficar bem sozinho.

É quando o telefone toca e seu coração bate muito mais rápido. É a pessoa. Diz que sente sua falta. Que te quer. Que te ama.

E você cede outra vez.

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Duas semanas depois, você percebe que já está completamente estragado no sentido romântico. Confiar já não é mais por inteiro, porque tudo o que se ouve tem o eco do que você já ouviu de mentira antes.

E você percebe pistas de que seria melhor não ter abortado o plano de se afastar.

Você se questiona. Se analisa. Porque não pode ser tudo culpa só do outro, né? A culpa também deve ser sua. Você investe para ser menos dependente. Você volta a rezar, depois de anos de ceticismo. Você pede forças para tomar a decisão certa.

Mas continua cedendo. De dor em dor, vai apanhando tanto até que cansa.

E não sabe se termina o relacionamento e enfrenta a solidão mais uma vez ou se aguenta mais um pouco na esperança de que a pessoa mude e você receba o troféu de toda a sua paciência.

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Você ainda não sabe como vai resolver essa história, mas olha para trás novamente e pensa "Eu sobrevivi aos desafios de antes". Pede a Deus para que sobreviva a esse também - e para que a próxima pessoa tenha a chance de te conhecer tão disposto a se entregar quanto a última.

E que, da próxima vez, seja mais fácil.

6 comentários:

  1. Anônimo7:06 AM

    "De dor em dor, vai apanhando tanto até que cansa."

    É o momento em que a gente tem a certeza do que deve ser feito, mas acredito que cada um tem o seu tempo (uns precisam de mais pancadas do que os outros. Que foi o meu caso).

    p.s. A solução é você aceitar logo o meu pedido de casamento. kkkkkk

    R.B.

    ;)

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  2. Anônimo8:19 AM

    Bom dia!
    Mulheres estranhas querem casar cmg?

    Att,

    Alex

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  3. Anônimo9:18 AM

    Quem és tu que me julgas?

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Anônimo6:31 PM

    muito bom. Me identifiquei com seu texto!

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