3.8.13

Três Alines

A primeira Aline eu conheci em uma entrevista de emprego.

Os candidatos eram entrevistados um a um, em frente a todos os outros. A entrevistadora perguntou qual era o motivo de e procurar esse emprego e eu respondi: "Feijão. Gosto muito de feijão. Sem trabalhar, sem feijão na mesa. Estou aqui pelo feijão".

Ela também deveria amar feijão, porque a estratégia funcionou. Gostar de feijão aparentemente me tornava apto a trabalhar vendendo celulares para pessoas com mais limite no cartão de crédito do que inteligência.

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Quando a Aline foi entrevistada, só disse que já tinha trabalhado na área antes e que estava procurando um novo emprego. Fomos selecionados, os dois.

Só fomos conversar no dia do exame médico. As primeiras palavras dela para mim foram "Tô precisando de um lugar pra morar, você sabe de alguém que tenha um quarto?". Minhas primeiras palavras para ela foram "Eu tenho."

Três dias depois, estávamos morando juntos e continuamos assim até hoje. Falávamos sobre como íamos vender bastante e ganhar bem (ela conseguiu, eu larguei o emprego no segundo mês) e sobre a fé cristã (ela ama, eu critico).

Ela veio para Curitiba atrás por causa de um amor. Três meses depois, o namoro acabou. Ela não desistiu da cidade, mas não teve pudores de se entregar ao sofrimento até esgotá-lo.

A primeira Aline fala da vida com fé e sofre por amor.

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A segunda Aline é minha vizinha.

Nos encontramos pela primeira vez no elevador, os dois com rumo ao supermercado. Interagir no elevador é uma tarefa especialmente difícil em Curitiba, então quando ela continuou falando comigo depois do "Boa noite", eu já tinha percebido que ela não era daqui.

Ela veio para cá tentando fazer a própria vida depois da morte do pai. Desde então, trabalha em shopping center e incrivelmente ainda consegue sorrir com sinceridade.

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Ela passou a vir no meu apartamento com uma certa frequência. Tomávamos chimarrão (talvez pra reafirmar nossa origem interiorana em comum) e conversávamos sobre as dificuldades de morar sozinho e sobre pagar contas.

Mas o que mais falávamos era sobre amores fracassados. A segunda Aline teve um relacionamento sério com um rapaz que parecia ser perfeito pra ela, até que ele mudou completamente e resolveu que o que realmente queria da vida era ter treze anos de idade.

Ela sofreu por pelo menos dois anos, enquanto trabalhava ainda mais duro no shopping center para poder pagar pelo próprio implante de silicone.

Entendo o raciocínio dela. Se é pra ter dor no peito, que seja por vaidade e não por coração partido.

A segunda Aline também fala da vida com fé e sofre por amor.

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A terceira Aline é irmã de uma grande amiga minha, e apesar de eu ter muita simpatia por ela, convivemos muito pouco.

Na primeira vez que a vi, estranhei um pouco a sua figura loira, de quase um metro e oitenta, e sua voz forte. Parecia um caso de pessoa com excesso de presença, aquelas pessoas que de tanta energia que têm intimidam todos ao seu redor.

Na segunda vez que nos encontramos, ela usava um vestido longo, cor-de-rosa, um coque no cabelo e um sorriso enorme. A guerreira da voz firme estava linda fantasiada de princesa, mas a energia sobrando continuava transparecendo.

"Eu adoro Beatles", ela me disse, falando baixo com um grito.

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Alguns meses depois, tomando um café com a irmã dela, um rapaz de mais ou menos um metro e sessenta e cinco (mas exalando dois metros e dez de autoconfiança) veio até nós pra dizer oi.

O encontro foi desconfortável, mas cordial. Minha amiga diz "Ele era namorado da Aline, já faz uns dois anos. Namoraram um tempão até que meu namorado pegou ele na rua com outra, se escondeu e filmou."

Não sei se pelo excesso de simpatia que tenho por ela ou pela minha experiência com as outras Alines, meu coração se condoeu por ela. Tive vontade de bater no garoto e na sua autoconfiança de baixinho.

Da terceira Aline só sei que fala da vida com fé. Por amor, suponho eu, deve sofrer também.

4 comentários:

  1. PO VC ESCREVE PRA CARALHOOOOOOOO KKKKKKKKK

    NAO POSTE ISSO , POREM ESSE TEXTO FOI MUITO, SIMPATICO, MESMOOO KKKKK

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  2. Anônimo10:37 AM

    Bom mesmo, gostei muito! Parabens!!

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  3. Anônimo11:27 PM

    Os mensageiras de satánas..

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  4. Anônimo12:30 AM

    kkkkk autoconfiança de baixinho

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