18.9.13

Julgamentos

Não sou petista, mas quando alguém comenta sobre política e usa as palavras "petralha" ou "corruPTos", eu já não consigo ouvir a sua opinião do mesmo jeito.

Fica uma impressão de que a ideologia está à frente do julgamento. Se eu não gosto do partido e parte do partido é corrupta, generalizo que o partido todo é corrupto. E o ideal realmente seria esse: qualquer ato de corrupção de um partido queimando a imagem de todos os seus membros.

Mas, infelizmente, quem pensa dessa maneira costuma usar a generalização só para os casos que convém.

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Para as Testemunhas de Jeová, existe a figura do ancião. O ancião é uma espécie de pastor e guia dos fiéis daquela localidade. Se você comete um pecado, deve (ao menos teoricamente) confessá-lo para essa pessoa. Se você falar que está arrependido, tudo bem. Se o pecado foi muito grave, você pode ser repreendido de alguma maneira.

Se você não se arrependeu, ou foi descoberto sem confessar e não pretende mudar seu comportamento, você é desassociado - isto é, as outras Testemunhas de Jeová não podem se comunicar com você. Sua família, seus amigos e as pessoas que antes você chamava de irmãos deixam até de te cumprimentar, até que você perceba seu "erro" e peça para voltar para a organização.

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O primeiro sinal de que alguém não entende de política é quando ela comenta qualquer coisa sobre política no Facebook seguida pelas palavras "ACORDA BRASIL!".

Fica parecendo alguém que está em um hotel e acabou de acordar assustado, tarde demais, e levanta gritando pra quem mais estiver no quarto: "Acorda, gente, vão tirar o café-da-manhã daqui a pouco!".

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Sei que, lá pelos meus dezesseis anos, um dos anciãos da congregação de Testemunhas de Jeová que meus pais frequentavam foi até o trabalho do meu pai para demonstrar seu amor cristão, dizendo que sabia que eu tinha comportamentos "afeminados" na escola, e que meu pai deveria tomar uma atitude.

Mal sabia ele que eu já tinha contado para os meus pais que sou gay, e que eu já achava aquela história de prestar contas da minha vida sexual uma grande idiotice.

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Meus comportamentos afeminados, dos quais o ancião foi carinhoso o suficiente para alertar meu pai, consistiam em ter amizade com meninas. Apenas isso.

Uma das meninas, inclusive, era a filha dele, uma das pessoas mais deliciosamente promíscuas que eu já conheci.

Algum tempo depois, fiquei sabendo (via fofoca, não tenho certeza de nada) que ele perdeu seu cargo de ancião depois de ser descoberto dando um calote financeiro alto em uma empresa.

Pobrezinho.

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É incrível, mas antes de terminar esse texto, fiquei extremamente ansioso. Com as mãos tremendo, telefonei para a minha mãe e, apesar dos pedidos dela para não falar da sua religião e correr o risco de ser desassociado, resolvi publicá-lo.

Pensando melhor, publicar esse texto é difícil não por medo de que a minha família seja proibida de falar comigo.

É difícil porque eu não conheço o ponto de vista da pessoa dedurou minha sexualidade ao meu pai. Eu não sei se realmente ele deu calote em alguém. É possível que filha dele, infelizmente, não seja tão promíscua quanto eu me lembro da adolescência.

Por mais mágoa que essa pessoa tenha me causado, não tenho interesse de retribuir essa mágoa à ele ou à sua família. Eu estaria fazendo uma generalização grosseira, como quem sai criticando os "petralhas" em comentários de internet.

Mas honestamente? Desejo do fundo do meu coração que a filha dele, promíscua ou não, lhe dê um neto muito, mas muito, mas muuuuito gay.

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