5.12.13

Te faço mal, mas te amo

Já fui extremamente intolerante com gente reclamando do próprio relacionamento. Bastava ouvir uma pessoa reclamar do casamento, meus olhos giravam como um pião recém-lançado.

Peraí, colega. Você se botou nesse relacionamento, continua com a pessoa por vontade própria, e ainda tá reclamando? Se manca. Se a pessoa que está contigo te maltrata, a culpa é toda sua por deixar que isso aconteça. Coisa de gente fraca.

Pelo menos era o que eu pensava.

O que não é mentira, se você for ver bem. A pessoa realmente se colocou nessa situação.

Então eu tive a sorte, sorte mesmo, de viver um relacionamento desses.

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Nem sempre a gente recebe o amor que precisa, do jeito que precisa, desde criancinha. Para uma criança que acabou de nascer, tudo o que lhe é apresentado é amor. Leite é amor, toque é amor, beliscão é amor.

Se a pessoa que cuida da criança apaga cigarros no braço dela enquanto lhe dá comida, a criança vai achar que as queimaduras são parte de ser amado.

Claro que esse é um exemplo extremo, mas ninguém tem um modelo perfeito de amor. Vários de nós tivemos pais distantes, violentos, dramáticos ou instáveis demais. Aprendemos que o amor é distante, violento, dramático ou instável, ou tudo isso num pacote só.

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Quando a gente cresce e vai procurar amor longe da teta da mãe, é impossível procurar uma coisa que nunca se conheceu. Se o primeiro exemplo de amor foi de distância, os amores da vida adulta também tendem a circular ao redor de pessoas distantes.

É o amor que se reconhece fácil. Amor com gostinho de comida caseira. São tantas as histórias de "Te faço mal, mas te amo", que essa fórmula parece quase inescapável.

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Por isso julgar alguém que se encontra preso numa relação abusiva é uma atitude cruel.

Sair de uma relação abusiva não é sair só de um mundo de agressões: é sair de um mundo em que se tem um amor conhecido e seguro, mesmo que acompanhado de uma porção de sofrimento.

Sair de um relacionamento abusivo - mesmo que ele não pareça ser de amor - ainda é abrir mão de algo que se ama.

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Claro que não dá pra culpar os papais e mamães do mundo e dizer que tudo para por aí. A pessoa presa em um relacionamento abusivo costuma ter a auto-estima muito machucada, também.

Entendendo cada agressão como um gesto de amor, e juntando isso com a sensação de não se merecer amor, o diálogo interno fica ainda mais violento. "Você diz me amar, mesmo eu sendo a porcaria de pessoa que eu sou. Eu aceito que você seja uma porcaria de pessoa comigo. Pode me bater. Eu sou tão ruim quanto apanhar, e você me aguenta. Pelo menos você me aceita."

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Antes de pregar as mãos da pessoa abusiva no relacionamento na cruz, vale lembrar que essa pessoa também teve uma referência infeliz de amor. Falta repertório, falta saber amar.

E como uma criança que apronta para chamar atenção da mãe (para que essa lhe dê carinho em forma de bronca ou coisa pior), o agressor usa da violência - é que sabe fazer.

Isso pode acontecer de infinitas formas: xingamentos, ameaças de abandono, distanciamento emocional, manipulação afetiva, comer sua irmã, aquilo que for machucar mais no momento.

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É estranho demais eu ver algo de bonito em tudo isso?

São maneiras de amar! É a luta do ser humano para dar e receber amor, ainda que disfarçado de outra coisa. Só nos falta saber fazer isso de um jeito que machuque menos.

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O mais difícil de um relacionamento abusivo é que, para quem está acostumado com um amor violento, as coisas precisam ficar extremamente ruins para se perceber que há algo de errado.

Que os momentos de puro afeto são muito poucos e as migalhas de amor não conseguem mais te alimentar.

Que mesmo sendo uma porcaria de pessoa, você pode merecer outra coisa.

Ou, mais difícil, perceber que existe outra coisa. Que é possível um amor em que você não fique à mercê da loucura de outra pessoa.

Quanta força se precisa ter para se afastar de uma fonte estável de "amor", enfrentar a própria auto-estima demolida, suportar a solidão, manter a esperança de amar novamente, isso tudo enquanto se reinventa no caminho pra não cometer os mesmos erros no futuro.

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E aí, uma pessoa presa em um relacionamento abusivo é fraca?

Pode até ser. Mas, quando conseguir sair, vai ser uma pessoa muito, muito forte.

3 comentários:

  1. Anônimo9:19 PM

    http://www.youtube.com/watch?v=4X7zx_YExhw

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  2. Anônimo12:15 AM

    Flávio, a popularização da internet e por consequente, textos como este seu, são de uma grande ajuda para melhoria de vida das pessoas. Eu vivi um relacionamento abusivo, abusado, violento sem ter pancada, embora houvesse ameaça do tipo: "vc merece uma surra". Eu não tinha amigos, a minha amiga de infância foi banida da minha vida pq ele dizia que ela queria destruir nosso "amor". Ele tinha alucinações de que eu o traía com cada tipo totalmente averso ao meu tipo de homem. Foi lancinante viver aquilo tudo e o pior foi viver durante 5 anos dentro daquele pesadelo.
    Ele era 30 anos mais velho que eu. Oi? Sim, mesmo contrariando minha terapeuta, hoje eu sei que eu estava procurando um pai para tapar o buraco da família desestruturada que eu tive, já que ele tinha 3 filhos e era excelente pai, amoroso e cuidadoso. Eu quis isso, mas o que eu tive foi um monstro abusador, violento sexual e emocionalmente. E por Deus, por que a gente não enxerga? pq é tão difícil entender que aquilo não é amor, é só uma tremenda de uma cilada? A minha mão coçou para enviar trechos do seu texto para ele.
    Estou há 8 anos livre desse cara, mas com a avalanche de textos sobre relacionamentos abusivos na internet, todo dia é uma volta ao passado. Uma viagem doída, mas serve para me fortalecer.

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  3. Anônimo5:33 PM

    Que texto sensacional! Me fez rir enquanto refletia, expandiu minha ideia de amor e me conquistou com sacadas geniais sobre o assunto. A vontade que dá é de estudar o texto (e o blog) como matéria de vestibular, fazer anotações e resumos para entender minha própria visão sobre o amor, logo em seguida pesquisando sobre as diferentes formas de amar no mundo. Ufa! Talvez eu faça isso mesmo. Textos como esse que inspiram um olhar novo sobre assuntos tão recorrentes merecem destaque. Parabéns a quem escreveu! Tem minha gratidão.

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