7.5.14

Chimia, geléia e outras doçuras

Quem olhar pela janela do meu apartamento, numa manhã qualquer, provavelmente me verá tomar uma xícara de café com leite e comer um pão com geléia.

Verá errado. Não é o que eu faço. Não gosto de geléia. Aquilo que eu passo no pão tem outro nome: chimia.

É coisa aqui do Sul. Não se come muita geléia por aqui.

Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

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A dona Eli era amiga da minha avó.

Não sei se exatamente amigas, ou só cúmplices, sobreviventes de uma geração. Só sei que havia muito carinho entre as duas e que, desde que eu era muito criança, a dona Eli já era bastante velha.

Das senhoras que iam à igreja toda semana, ela era a única que não ia com a família. Ela chegava cedo - trazida por alguém -, conversava com a minha avó, e depois sentava sozinha.

Na minha cabeça de criança, duas coisas sobre ela ficaram gravadas: a surpresa de descobrir que mulher também podia ficar careca (minha mãe me explicava o porquê, mas eu não entendia), e aquela voz.

A dona Eli sempre falava com a voz tremida. Uma voz tão fraquinha, tão fraquinha, que ela parecia estar sempre chorando.

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Me identifico mais com a chimia do que com geléia. Explico a diferença:

Para fazer geléia, você usa as frutas mais maduras, as mais suculentas, antes que elas passem do tempo. Depois, cozinha lentamente as frutas com açúcar, até que se forme uma pasta doce. É um doce nobre.

A chimia, não.

Inventada pelos imigrantes, que tinham de fazer máximo proveito da terra em que viviam, a chimia é feita com as cascas e as partes menos nobres das frutas, fervidas com açúcar até que se tornem palatáveis.

A geléia é a comida dos a que nada falta. A chimia é para quem precisa arrancar a doçura do bagaço da vida.

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A dona Eli era mestre na arte de fazer chimia.

É um trabalho mais difícil do que parece. Haja braço para mexer aquele monte de pedaço duro de fruta na água fervente até que aquilo se derreta.

E não era uma tarefa de só de vez em quando. A dona Eli tirava seu sustento com as chimias que fabricava em casa, na sua cozinha entupida de vidros de Nescafé vazios, que esperavam recheio.

Algo me diz que ela era muito mais forte do que eu pensava.

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Eu tinha uns sete anos, e minha avó pediu para ir até a casa da dona Eli entregar uma carta. Cheguei à casa dela e fiz a entrega, pronto para rodar nos calcanhares e ir embora.

Não tão rápido.

Ela me segurou com suas mãos, amassadas pela vida e macias apesar de tanta panela, e pediu pra eu esperar.

"Calma, que eu quero ver se tenho uma coisa pra você."

Esperei em silêncio, divertindo os olhos com os padrões que os caquinhos de azulejo desenhavam no chão.

Ela voltou com um punhado de balas.

"Obrigado pela visitinha!", disse ela, sorrindo e com a mesma voz de choro de sempre.

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Estava tão feliz que até fiquei constrangido, sem querer passar a impressão de que fui ali só pra ganhar bala. Ela olhou para mim por mais alguns segundos e disse de novo:

"Espera. Acho que eu tenho mais alguma coisa."

Dessa vez ela levou mais tempo. Corria de um lado para o outro dentro da casa, em busca de alguma coisa, enquanto eu entupia os buracos dos dentes com açúcar.

Voltou com uma nota de um real na mão.

"Toma. É pra você."

Não entendi bem por quê, mas tive vontade de chorar. Como podia sair tanta doçura de uma mulher tão pequena?

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Perguntei aos meus pais se a dona Eli ainda estava viva. Me disseram que está. Pedi quantos anos ela deve ter hoje, eles não sabiam.

Perguntei se ela ainda faz chimia pra vender. Disseram que sim, ela faz, e que ainda é a mais gostosa da cidade.

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Prestando mais atenção, tinha muito mais coisa onde eu via uma aquela mulher pequenininha e sofrida.

Olhando para ela hoje, pela janela do tempo, eu vejo uma alquimista, capaz de transformar bagaço em doçura, redefinindo o que significa força.

Não sei qual era o seu segredo. Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

Suspeito que seja carinho.

Um comentário:

  1. Nao sou gaucha,mas gosto muito de chimia,como-a pura.rsrsr
    Mas so quero mesmo de dar os parabens,por essas lembranças tao ternas,e bem rabiscada no papel.(ops...tela).

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