13.1.15

Pequenos suicídios

Li um caso clínico, em um livro de psicanálise, sobre um senhor de oitenta e poucos anos que, mesmo casado com uma mulher por toda a vida, finalmente desejava viver a homossexualidade que passou a vida negando.

O psicanalista teve a triste missão de ajudá-lo a perceber que era tarde demais. Doente e dependendo dos cuidados da esposa, também já idosa, era mais prudente lidar com o fato de que já não era mais possível reparar os danos dessa parte abandonada.

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Quando recebemos a notícia de que alguém tirou a própria vida, a sensação de algo interrompido é inevitável.
“Mas era tão novo!”
“Mas era um pai de família!”
“Mas tão velho, se matando? Não era melhor esperar?”

É porque temos a ideia de que a vida precisa ser vivida ao máximo, sem atalhos ou concessões.
Quer dizer, pelo menos a vida dos outros.

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Uma paciente que tive (e de cuja história mudo alguns detalhes para preservá-la) me procurou por conta de muito estresse no trabalho. Executiva em um banco privado, sofria crises de pânico toda manhã a caminho do escritório.

Conversando sobre o seu passado, falou que era a única da família nesse ramo. Todo o resto trabalhava em salões de beleza. Mãe, avó, tias, todas eram cabeleireiras de sucesso.
Ela cresceu entre escovas e secadores de cabelo. A intensidade do carinho com que falava sobre os momentos que passava ajudando as mulheres mais velhas no salão de beleza me comovia.

Perguntei se ela nunca considerou ter seguido os passos da família.
Ela disse que sim. Fez a escola de cabeleireiros, encheu-se de expectativa, comprou uma cadeira para trabalhar no salão da mãe e esperou a primeira cliente pagante. Sob os olhares apoiadores das mulheres da família, ela fez o corte com muito capricho.
Nessa parte da história, seus olhos encheram de lágrimas.

A cliente, disse ela, levantou, olhou para o espelho, olhou fundo em seus olhos e reclamou: “Mas ficou uma bosta, hein? Você cortou demais. Não vou pagar por essa porcaria!". Girou nos calcanhares e saiu.
A recém-cabeleireira fechou as tesouras, limpou a cadeira e nunca mais tocou num cabelo novamente.
Agora, tinha ataques de pânico a caminho de um trabalho que não tinha nada a ver quem ela era.

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Abrir mão do que somos por medo é uma violência terrível. Sabotar nossa verdadeira personalidade é suicidar-se da própria força.

Fico pensando em como seria a vida daquele senhor de idade que nunca assumiu o desejo por outros homens. O quanto teria crescido ao enfrentar o medo que tinha, o quanto teria sido alegre ao lado de um companheiro que lhe complementasse. Em como sua esposa poderia ter gozado ao ser comida por alguém que realmente gostasse do que estava fazendo.

Ou ainda, como seria a vida daquela executiva se tivesse deixado sua sensibilidade estética florescer, Ainda, como uma crítica violenta pode desarmar a vida de uma pessoa de um jeito que o ofensor jamais imaginaria - e como a gentileza é fundamental.

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Somos nós que desligamos as máquinas da nossa esperança e nos permitimos murchar diante das impossibilidades da vida.

Não por irresponsabilidade ou fraqueza, mas porque a dificuldade de seguir em frente é grande demais. Suicidamos nosso desejo – e, com ele, morre o nosso prazer de viver.

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Se o senhor gay morreu sem ter provado o amor de outro homem, por outro lado a executiva, já fora da terapia, abandonou o emprego que lhe fazia tanto mal.

Nem sempre é tarde demais para tentar viver de novo.

Um comentário:

  1. Nossa, me lembrei do livro Laranja Mecânica ao ler seu texto.
    "Um homem que não tem poder de escolha deixa de ser homem", acho que nunca vou esquecer isso. Temos fazer o que nos dá tesão à vida, de fato. Ser o que é por causa de criticas, pressão social ou "leis" é um retrocesso imenso.

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