14.6.15

Vidas solitárias

Todos os dias, eu acordo sem ninguém ao meu lado.
Tomo o meu café da manhã sozinho, lendo sozinho as notícias do jornal.
Saio de casa sozinho, vou ao trabalho sozinho, e lá estou cercado de gente.

Bato o cartão sozinho e volto para casa acompanhado dos meus fones de ouvido. Faço meu jantar sozinho, enquanto canto para as paredes, e vou dormir sozinho.

Há quem pense que a minha vida é solitária.

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Uma amiga minha é a raspinha do tacho da família. Com três irmãos mais velhos, foi uma caçula muito amada - e muito cobrada - por todos.

Se apaixonou ainda na faculdade e tem um relacionamento intenso desde então. Intenso mesmo: brigam muito, discutem muito, reatam muito, choram muito e em alguns momentos são muito felizes. Sempre um ao lado do outro. Uma vida que é quase uma propaganda de shopping no dia dos namorados.

Ela vai dormir ao lado dele, acorda com ele, toma o café com ele e volta para a casa para encontrá-lo. Estão os dois lado a lado, isolados do mundo.

Às vezes eu penso que a vida deles é solitária.

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Minha mãe teve dois filhos de sangue, mas sempre tivemos um punhado de agregados lá em casa.
Gente que não tinha muito para onde ir e que acabava dormindo uma noite, duas, e quando percebíamos estava lá há alguns meses.

Ela foi professora por muitos anos, e até hoje alguns ex-alunos aparecem lá em casa para dar um abraço e abrir o coração pra ela.

Além disso, é envolvidíssima na igreja e sempre tem alguma visita em casa. Ela mora com meu pai e meu irmão.

Às vezes, ela me liga no meio do dia, meio sem jeito e com a voz chorosa, e diz "eu só queria ouvir sua voz".

Não sei se muita gente pensa que que a vida dela é solitária, mas eu acho que é.

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O conhecido que mora sozinho e está aposentado.
A vizinha que passa o dia conversando com todo mundo, mas que você sente que nunca realmente escuta.
O cachorro que passa o dia na porta, com cara de triste, esperando o dono voltar para casa.
O marido que não abre suas frustrações para a esposa por medo de que ela perca a admiração por ele.
O seu amigo que sempre te procura, mas de quem você se afastou um pouco porque só conversa com um baseado na mão.

Não existe pessoa que não tenha sido tocada pela mão fria da solidão.

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Acontece que a experiência da solidão não se resume à falta de outra pessoa na sua vida.

Se fosse apenas por falta de pessoas ao redor, ninguém se sentiria solitário. Todo mundo conhece alguém mais solitário do que si, e todo mundo sabe de alguém que poderia visitar. Fosse só isso, todo mundo se encontrava e a solitude não seria tão universal.

O buraco é mais embaixo. A solidão que dói é aquela para a qual não basta uma pessoa por perto.
É aquela que quer uma pessoa capaz de realizar as expectativas que não fomos capazes de cumprir por nós mesmos.

Aquela que quer uma pessoa argamassa pra preencher nossos buracos - e isso não existe.

E, se existisse, seria o fim de qualquer possibilidade de crescimento pessoal. Gente completa não precisa crescer.

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Paciência, solitários.
Não adianta pedir a Deus para ter o seu amor de volta, não adianta querer manipular seu filho até que ele lhe visite, não adianta passar horas no Tinder.

Solidão não se cura com outra pessoa.
Ou você aproveita a deixa e entra numa jornada de autoconhecimento, tentando suprir sozinho as necessidades que você queria que outra pessoa resolvesse, convivendo com suas frustrações e fraquezas individuais até começar a gostar do que vê, ou você se apega na esperança de que alguém vai tapar esse buraco.

E essa esperança, sim, é muito solitária.

3 comentários:

  1. Muito, Muito, Muito Bom!
    Tudo Com Letras Maiúsculas Mesmo!

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  2. Rosete.1:20 AM

    Rdzffrxjhf

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