10.8.15

A geração do bico

Meu pai passou trinta anos construindo uma empresa até ela ser sólida o suficiente para sustentar uma família, com o objetivo de passar isso adiante para os filhos e deixar uma herança segura para os dois polacos babões que ele trouxe pro mundo.

Mesmo sendo babão, aprendi muito com a ética de trabalho dele.

Ele trabalhou muito duro, pegando pesado em dois fatores que ajudaram a empresa a dar certo:
Um, ele dava uma atenção enorme para cada cliente que passava pela porta.
Dois, os serviços que ele presta são super difíceis de aprender e dependem muito a experiência que só ele pode ter.

O que deixou meu pai praticamente sem tempo nenhum, porque o trabalho da empresa depende dele para tudo. Sem o diferencial do que ele faz, muito mais prático comprar o que ele vende pela internet.
Nada muito fácil para os filhos assumirem - isso sem contar que os dois polacos foram babar longe do pé: eu fui estudar psicologia e meu irmão foi tocar bateria e encher o corpo de tatuagens.

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A geração a que eu e meu irmão pertencemos não valoriza tanto a estabilidade quanto a do meu pai.

Chega a ser confuso: Todos desejamos vidas emocionantes e cheias de acontecimentos, mas quase todos os meus amigos estão tentando concurso público.

Olhando mais a fundo, parece que até a estabilidade do concurso é um projeto temporário. Algo como “Vou trabalhar aqui pelo dinheiro e fazendo o que eu gosto no paralelo, depois eu abandono”.


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Não acredito que meu pai tivesse grandes emoções ao trabalhar quatorze horas por dia construindo uma empresa. No máximo a emoção de saber que os filhos tinham comida na mesa e cadernos para ir pra escola.

Minha geração quer outra coisa: quer sentir frio na barriga, quer aplauso, quer sair do trabalho no horário que decidiu, dirigindo uma Mercedes, dar um pulo no apartamento de luxo pra trocar de roupa e ir pular de bungee jumping, antes de voltar para o anfiteatro onde vai dar uma palestra com o tema "Acredite nos seus sonhos” e receber aplausos de cinco mil pessoas.

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Não duvido que alguns de nós consigamos uma vida assim.

Não é minha intenção julgar esse objetivo – essa geração é a minha, e eu sou igualzinho ao que eu estou descrevendo – mas esse tipo de sonho tem um preço muito alto. Para ter a possibilidade de uma carreira emocionante, muitas coisas estão em risco. Você precisa passar por experiências de vida muito intensas e ainda ter tempo para se dedicar a coisas novas.

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Viramos a geração do bico.
Primeiro, bico pra pagar as contas. Não estamos dispostos a trabalhar quatorze horas por dia por trinta anos antes de ter resultados. Queremos nosso bungee jump no final do dia. (Todos meus colegas que investem com muito peso nessa parte parecem precisar de algumas cervejas ou um baseado no final do dia para pelo menos sentir um pouco de emoção).

Na escolha pela emoção, escolhemos nossas carreiras com ousadia:
"Vou estudar língua polonesa, serei o escritor exceção que vai ser amado por crítica e público!"
"Vou estudar musicoterapia, a área é difícil mas eu vou saber me destacar!"
"Vou viver de tocar guitarra, com muita fé e trabalho eu chego lá!"

Enquanto isso, hora de se virar: fazemos bicos de tradução, damos aulas, entregamos panfletos... tudo para garantir o feijão na busca de uma emoção maior.
Nada de maiores comprometimentos! Só bicos. Tudo é temporário.
"Só algum tempo nesse emprego até eu conseguir me estabelecer melhor, depois eu saio."

Agarramos firme em um cipó e pulamos de árvore em árvore tarzaneando rumo a um objetivo vago, com a ideia de que iremos aterrissar, quase por acidente, na realização pessoal e financeira.

(O mercado sacou isso e tem agido bem de acordo: agora a promessa não é de estabilidade e direitos garantidos: é de vaga temporária com um salário melhorzinho, é de pessoa jurídica com salário razoável e garantia nenhuma, é o bico formalizado. É isso que tem sido atraente para o trabalhador mais jovem.)

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Aí vem outro tipo de bico, quando não chegamos nesse objetivo maior:
"Não deu certo por quê, meu Deus? Cadê o nosso trato, vida? Que eu ia arriscar e ser ousado e você ia me premiar com aplausos e uma casa na praia?"
(ou, pior ainda: tô na praia e sendo aplaudido, mas cadê a felicidade que eu devia estar sentindo?)

É um pouco de birra, mesmo. Até em um texto ou outro sobre o assunto aparece o argumento de “Recebemos a promessa de que teríamos carreiras brilhantes e nos frustramos quando não a encontramos”.

Espera um pouco aí: ninguém prometeu nada! A gente que criou essa expectativa e resolveu agir de acordo. Conseguir é questão de sorte.

E nós, como crianças mimadas, batemos o pé e choramos pelo doce que ninguém nos disse que íamos ganhar. Bico de novo.

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Não é que o conceito de felicidade seja novo.
Não quer dizer que nossos pais não tinham a ideia de serem felizes profissionalmente, nada a ver com isso. A maior diferença talvez esteja que nós colocamos o sucesso absoluto como pré-condição para a felicidade.

E sucesso absoluto não existe, e felicidade condicional também não.
Lembrar que a vida não nos prometeu nada e que trabalhar duro numa coisa só é essencial para que algo floresça ajuda a adaptar as expectativas e a deixar de querer tantas coisas como condição para ser felizes.

Isso deixa a vida mais fácil. Daí pra frente... é bico.

3 comentários:

  1. Anônimo11:51 PM

    Cara, discordo. Mas maravilhoso seu texto! faz pensar.

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  2. laysla1:48 PM

    Nossa. E. Um. Maximo. Legal. Tambem.
    Gostei. Do. Seu. Comentario

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  3. Concordo, plenamente esse geração, está mais focada no sucesso, no status, do que na estabilidade. Há fatores de personalidade entre outras coisas, que podem hiperpotencializar esse comportamento, algumas vezes comportamentos megalomaníacos. Conheço gente talentosíssimas inteligentíssimas, grandes mentes, que não saem do zero a zero por essa causa. Acredito que nestes casos é sempre imprescindível a terapia psicológica, ou um coaching de carreira, para que a pessoa possa florir como vc escreveu.

    Bom texto informativo e critico, parabéns, tem evoluído bastante e mudado sua escrita nos últimos anos...

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