6.10.15

Narcisos

Era uma vez um rapaz chamado Narciso, que nunca tinha visto o próprio reflexo (a mãe dele foi trocada por uma mulher que vendia espelhos ou coisa assim).

Um dia, quando jovem, Narciso foi beber água em um lago (abalada pelo abandono, a mãe dele nunca se importou em colocar água encanada em casa) e viu o próprio reflexo na água.

Ficou apaixonado.

"Mas que tesão de novinho!", pensou ele.

Ficou dias se admirando, até que um dia tentou se lascar um beijo e caiu na água. Narciso não soube nadar (sua mãe era agorafóbica e não conseguia levá-lo na aula de natação) e morreu afogado.

Fascinado por si mesmo, Narciso se levou à morte.

(história levemente adaptada por preguiça de abrir a Wikipedia pra lembrar da original)

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Não sei vocês, mas eu uso a palavra "narcisista" como xingamento. Não tem coisa melhor para falar mal de uma pessoa expansiva demais, desesperada pra chamar atenção o tempo todo.

Acho isso injusto com Narciso. Ele, ao meu ver, era uma pessoa em depressão. O narcisismo é, por excelência, uma estratégia de defesa.

Narciso era um tímido: quando ficou consciente da própria beleza, ficou tão preocupado em não macular a perfeição que via em si mesmo que ficou paralisado.

Para manter o controle de como seria percebido, Narciso não podia tirar o olho de si mesmo, constantemente policiando-se para não se perder.

Para se proteger, o único olhar que Narciso recebia era o próprio. Ninguém mais podia ver sua beleza.

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Não é à toa que "Narciso" surge da mesma raiz que a palavra "narcótico". Estar narcísico é estar entorpecido em si mesmo, incapaz de interagir verdadeiramente com o mundo exterior, por medo de não ser reconhecido se expôr.

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Dá um trabalho danado ser Narciso.

A energia que se gasta se protegendo, querendo estar no controle e fingindo não querer ser o centro das atenções é exatamente a mesma energia que estaria disponível para fazer alguém brilhar e se manifestar à altura da própria capacidade.

Narcisismo é o oposto de auto-estima. Ter auto-estima é confiar que o julgamento do outro pode ser um pouco mais generoso do que o próprio. É deixar de querer ser tão perfeito e se mostrar belo do jeito que naturalmente já se é.

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Deixar de ser narcisista requer uma boa troca: gastar menos energia se preocupando em estar perfeito para gastá-la se manifestando mais autenticamente.

Basta olhar para si e pensar "Se eu tenho tanto ciúme, acho tanto que os outros deviam me dar valor, quero tanto ser reconhecido... é porque eu devo me achar muito foda, mesmo!".

E usar um pouco de lógica: "Se eu me acho tão foda assim, provavelmente algo de foda eu devo ter. Então, não preciso ter ciúme, nem vergonha de me mostrar. Vou agir do jeito que eu tenho vontade e exigir meu reconhecimento em voz alta. Ai de quem não gostar, que perde a oportunidade de ter um eu do lado."

Com auto-estima, ninguém precisa se achar perfeito nem se apaixonar pela própria imagem. Satisfeito com quem se é, ninguém se machuca tanto com as rejeições da vida, e fica mais fácil ser verdadeiramente humilde - ou seja, gostar de si mesmo dentro das próprias limitações.

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Era uma vez um Narciso que não era narcisista.

Um dia, ele viu sua própria imagem refletida num lago.

"Que pitéu", pensou ele. "Tô gato mesmo".

Ficou enfeitiçado pela própria imagem. Mas não quis guardar isso só para si.

Saiu andando pelas ruas cumprimentando todo mundo, piscando o olho pra quem olhava pra ele, caprichando no rebolado e no charme.

Fez um book de modelos e distribuiu por aí.

Fez sucesso. Viajou o mundo todo, mostrando sua beleza para todos.

Anos depois, viu a própria imagem refletida no lago. Estava envelhecido. O cabelo estava ralo, o rosto enrugado, a pele marcada. Passou a mão pela barriga já saliente e viu como tudo tinha mudado.
Deixou-se refletir um pouco.

"Sabe que eu ainda dou um caldo?"

Abriu um sorriso e seguiu em frente, continuando a piscar o olho com pés-de-galinha e mostrando o que tinha de belo por aí.

Sua beleza era algo mais profundo do que a superfície do lago podia refletir.

Um comentário:

  1. Todos temos o grau de amor próprio, o narcismo é inerente a todos os humanos. Há diversos graus desta variedade! Em maiores graus caracteriza-se como o TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE NARCISISTA. Para mudar isto existem as psicoterapias efetivas.

    Bom texto Flávio você escreve muito bem, obrigado!

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