7.1.16

Plano odontológico

Todos os dias, a formiga acordava com o dia ainda escuro. Batia duas vezes na função soneca, abraçava o travesseiro e criava coragem. Depois, enchia a cara de café, vestia terno e gravata e ia trabalhar.
“Sou precavida”, pensava ela enquanto se pendurava no ônibus, “É uma vida sofrida, mas isso ainda vai valer a pena”.

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Tão incansavelmente quanto, a cigarra passava pela apressada formiga todos os dias.
“E aí, workaholic de seis pernas”, gritava, “bora pra um happy hour?”
“São seis horas da manhã”, respondia a formiga.
Essa atrevida da cigarra ainda ia aprender uma lição.
Por mais desanimador que fosse ver folhas e mais folhas se empilhando em sua mesa, a formiga adorava imaginar a sensação de vingança e glória que sentiria quando o inverno chegasse.

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Mas, por enquanto, ainda era verão. E que verão!
Se encontraram novamente.
“Tá confortável esse sapato fechado?”, perguntou a cigarra, com deboche.
“Vai se foder, cigarra dos infernos”, disse a formiga. “Você é tão chata que apelidaram a cantora Simone com o seu nome”
“Então é Nataaaal”, cantou a cigarra, com sua voz fanha.
“E o que você fez?”, respondeu a formiga. “Hein? Porque eu trabalhei o ano inteiro e você me dá licença, que eu tenho que bater cartão”.

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Chegou o inverno.
Era a chance e a vez da formiga se vingar. Andou pela rua ansiosa para encontrar a cigarra. Encontrou.
“E aí, Cigarrinha, curtiu meu cachecol novo?”
“Adorei. Tá parecendo o Smilingüido tentando o suicídio.”
“Ridícula. Mas e aí, tá preparada pro inverno? Acho que não, né? Você não trabalhou o verão inteiro...”
“Amiga, que é isso? Vou pra Recife, lá não tem essa de inverno. Vou vender miçanga, tomar água de côco com vodka e arranjar um gringo! Quer ir junto?”

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A formiga ferveu de ódio, mas não ia sair por baixo.
“Não posso... O trabalho tá exigente, sabe? Tão dizendo que até o final do ano eu vou ser promovida a supervisora”, disse ela, cheia de orgulho. “Vou ter grana sobrando pra viajar, depois disso.”

A cigarra, mesmo sem ter ombros, deu de ombros.
“Bom, eu vou viajar agora mesmo. Tchauzinho!” – e saiu contente.


“MAS EU TENHO PLANO ODONTOLÓGICO!”, gritou a formiga, vitoriosa.

Um comentário:

  1. Anônimo1:08 AM

    (risos)
    um bom texto para encerrar o dia. Tudo depende do ponto de vista que se toma.
    Abr

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