8.8.16

Amigos artistas

Abençoado é aquele com amigos artistas.
Sou desses. São vários, menos ou mais talentosos, quase todos precisando de público, com fome de aplauso, querendo a certeza de não estar falando para as paredes.

Sabe aquilo que tanto falam do Facebook, de que as pessoas hoje vivem para ganhar likes?
Os artistas sempre foram assim. Sedentos de atenção e (os melhores, pelo menos) em dúvida de se o que fazem tem algum valor.

--

Para apoiar um amigo artista, tenho duas regras.

A primeira é: apoiar sempre.

Se eu der de cara com um texto seu, ou uma música, ou uma foto, e admirar seu trabalho, você vai ganhar um elogio.
Mesmo que eu já tenha te elogiado mil vezes. Mesmo que eu não te conheça e fique sem jeito. Mesmo que eu não goste de você. Mesmo que você já seja elogiado muitas vezes.

Já fui chamado de paga-pau muitas vezes por isso. Tudo bem, bons paus merecem ser pagos.

É desse jeito:
Se é bom, eu aplaudo.
Se é médio, eu elogio o que eu gostei.
Se é fraquinho mas esforçado, eu elogio mais ainda e digo que quero mais.

Quem trabalha com arte sabe a diferença que faz um elogio na hora certa.

--

A segunda regra é: não aplaudir forçado.

É desconfortável, é difícil, mas eu não vou te elogiar só porque você tá esperando confete.

Aplauso é presente, e só deve ser dado com amor no coração.
Confete não merecido apodrece um artista por dentro.

Me peça um rim, mas não me peça likes.

--

História:

Uma conhecida minha decidiu ser poeta. O pai bancou a edição do livro. Até alguns autógrafos ela deu. 
Principalmente para tias e amigos, a fortuna dos escritores iniciantes.
Mas escrevia bem, a moça. Não era nenhum Michel Temer, mas quem é, né?

A encontrei entre amigos, num bar. Me alcançou uma folha de papel com um poema. Li, atento. Nada de Uau!, mas bonito.

O resto da mesa distraído em outras conversas, ela me fuzilou com a pergunta:
- O que você achou?

Fui pego de surpresa.
- Achei... bom. - e sorri, o menos amarelo que pude.

Ela me direcionou um olhar de raiva. Voltei a dar atenção ao assunto da mesa.

--

Meses mais tarde, a encontrei, bêbada. Ela me confrontou.
"Por que você me detonou?".
"Como?"
"Você detonou meu poema na frente de todo mundo! Eu te admirava tanto!"

Povinho sensível e de expectativas altas.
Ouvir um elogio um pouco mais modesto do que se esperava já é ser detonado. Pessoas inseguras são recheadas de TNT.

--

Não me retratei. Semanas depois, vi um outro poema dela no Facebook.
Curti. Comentei elogiando. Enviei mensagem dando parabéns.

Não consigo fugir da primeira regra.

--

Não concordo com o ideal do artista com fome, rejeitado pela sociedade e azarado no amor, que precisa ser pária em tudo pra ter valor em sua arte. Mas também não aceito o contrário, Deus me proteja da bolha.

Você caiu no mundo com a ambição ousada de ser poeta? Com a loucura de querer soltar a voz? Com a insanidade de desejar pisar no palco?

Engrosse a sola do pé, meu amor. A caminhada há de ser dura. É necessário ser firme.

Se a sua arte está associada à crítica ou ao elogio, ela não está vindo de dentro o suficiente. A melhor arte é aquela que você não consegue evitar, mesmo que ninguém vá gostar.

Melhor assim. Afinal, aplauso fácil não tem graça. Aplausos de mãos calejadas valem mais.

Estarei por aqui, calejando as minhas, para poder aplaudir melhor. Só não conte com isso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivaç...