14.9.16

Inventar-se homem

Rapazes, essa é pra vocês.

Homens que não se sentem em casa entre os sarados top macho alfa da balada e nem com os desconstruidões do pé descalço do sarau-ciranda.
Os que estão no meio-termo.

As mulheres não são mais as mesmas do que prometeram pra gente quando a gente era criança, né? Pois é, elas mudaram. A gente, não tanto.

Aí sobrou pra gente se segurar como puder.
Alguns se afirmam no "foda-se, vai fazer meu sanduíche, mulher é pra meter mesmo, sai feminazi".
Outros ainda não sabem bem o que fazer diante de uma mulher empoderada, que ele respeita e admira mas fica mas sem saber qual a função que lhes resta.

Desses eu tenho visto muitos, que aparecem no consultório, calados e intimidados por não quererem a mesma coisa de um relacionamento que a namorada, ou morrendo de vergonha de estarem com menos tesão por uma mulher que engordou, como se não tivessem o direito de ter um pau que fica duro por causa de atração física.

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Meninos, a gente tem que aprender algumas coisas com elas.
Elas que, muito mais que a gente, foram forçadas a cumprir papéis nem sempre compatíveis com o que eram realmente. A construção da mulher atual começou com uma desconstrução.

Descontentes com como eram obrigadas a agir, foram despindo-se.
Despindo-se da obrigação de casar, da obrigação de ser mãe, da obrigação de ser o objeto do outro.
E foram vendo que não precisavam despir tudo de uma vez, que podiam curtir a delicadeza, que podiam querer dedicar a vida aos filhos, assim como podiam curtir a intensidade e a vida de negócios.

Passo a passo, elas foram olhando para o que era esperado de uma mulher e abandonando o que lhes era incômodo, vestindo só os papéis que lhe cabiam no desejo e passando com um trator para abrir caminhos onde antes não podiam passar.

Ainda há muito o que se conquistar, mas olha só que longe elas já chegaram.

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Já os homens estão desconfortáveis.
Quando a referência de ser homem é ser o oposto da mulher, e as mulheres começam a ser polivalentes, não sobra pra onde se correr. Não dá pra ser o oposto de tudo no mundo.

E é aí que podemos aprender com o processo delas, que começaram a partir do próprio desejo em vez de a partir de quem é o outro.

Olhe bem o que lhe incomoda sobre o papel que é exigido de um homem.
Olhe bem o que você gosta sobre as expectativas que um homem tem sobre si.
Olhe onde seu sapato aperta e onde há espaço para folgá-lo.

E construa-se a partir daí.
Da sua própria experiência, do seu próprio jeito de viver a masculinidade.

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"Toda armadura de homem é emprestada e dez números maior, e dentro dela mora alguém com medo de ser descoberto", disse a Norah Vincent depois de passar dois anos passando-se por homem para escrever um livro.

Com razão.
Nos cercamos de armaduras por não acreditar que somos fortes o suficientes sem elas.

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Mudar é mais simples do que parece.
Basta se permitir e se conhecer sem preconceitos. Como uma pessoa única, em relação com uma série de pessoas - homens e mulheres - tão únicas quanto.

Um homem só é fortalecido quando se permite ser exatamente o que é.
Porque um homem pode ser sensível - e pode ser bruto também.
Selvagem e sensível. Vulnerável e poderoso. Romântico e sexual.
Naturalmente, na medida de cada um.

Como homens sem armaduras e ainda assim fortes, não vai nos intimidar ver uma mulher ter seu poder.

E então, lado a lado, poderemos nos divertir bastante.

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