6.1.17

Diagnóstico

Eu lembro do meu primeiro fim de namoro sério.

Na época eu fazia estágio com uma psicóloga super conceituada. Depois de umas semanas sofrendo, não aguentei mais. Perguntei se ela podia me indicar um psiquiatra, porque do jeito que eu estava não podia ser normal.

Era muito sofrimento. Estava difícil demais e eu precisava de um remédio.

"Aguenta mais um pouco", ela me disse. "É importante você passar por isso".

Quase mordi a mulher.
Como assim ignorar meu sofrimento, que obviamente era um sinal de algo errado comigo? Mas ela era uma profissional da área e eu dei uma chance pro conselho que ela deu.

Quando eu me dei conta, já estava namorando de novo, terminando namoro de novo, sofrendo de novo... Mas com uma compreensão muito maior de mim mesmo que eu jamais teria adquirido se eu não tivesse me entregado ao sofrimento daquela fase.

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Uma coisa engraçada de trabalhar com saúde mental é que as pessoas parecem desejar muito um diagnóstico pra chamar de seu. Basta a pessoa saber que eu sou psicólogo pra me passar uma lista de sintomas e me perguntar "Isso é normal?", ou "Eu tô com depressão?".

Ou ainda, é só um transtorno mental aparecer na mídia para todo mundo achar que tem, ou que o irmão tem, o vizinho tem... E é muito fácil se convencer de que se tem um problema mental.

Olha só alguns dos sintomas de depressão:
"Tristeza persistente ou perda de interesse, incapacidade de dormir ou de concentrar-se, alterações do apetite, níveis de energia reduzidos."
Quem diabos não sente isso de vez em quando?

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Vamos pegar outra doença. Transtorno bipolar, pra complicar um pouquinho:
"Mudanças de humor, tristeza, entusiasmo, ansiedade, apatia, apreensão, culpa, descontentamento geral, desesperança, euforia, perda de interesse, perda de interesse ou prazer nas atividades, irritabilidade, comportamento desorganizado, agitação, impulsividade."

Se você não teve algum desses ítens nos últimos tempos, eu te pago um pastel.
Aliás, você me paga, que você tá bem melhor que eu.

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Agora olha alguns sintomas de esquizofrenia:
"Isolamento social, comportamento desorganizado, falta de moderação, transtorno de pensamento, confusão mental, crença de que um evento comum tem um significado especial e pessoal, desorientação, lentidão durante atividades, ansiedade, apatia, raiva, alucinação, paranoia, ouvir vozes, delírios, depressão ou medo, fala incoerente ou fala rápida e frenética."

Mais difícil, mas ainda assim bastante comum.

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O que eu quero dizer é que é muito fácil se autodiagnosticar com uma doença grave sem ser esse o caso.

Na faculdade, não tinha uma aula de psicodiagnóstico em que a gente não se diagnosticasse com três doenças diferentes.

Se o transtorno que a gente estudava no dia era particularmente pesado, a gente diagnosticava algum colega, só pra não perder o hábito.
"Cara, compara os sintomas com a Lílian! Cara, bate direitinho, certeza que ela é psicopata."

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Por isso é bom lembrar que:
1 - Assim como você não diagnostica diabetes só porque a pessoa está bebendo muita água sem fazer um exame de sangue, você não diagnostica uma depressão sem um exame profundo do comportamento da pessoa em um período mais longo de tempo.

2 - Você ter uma crise de tosse não quer dizer que você tem pneumonia, certo? Só quer dizer que, por algum motivo, seus pulmões estão irritados naquele momento. Você leva o contexto em conta. Da mesma forma, você ter sintomas de um transtorno mental não quer dizer que você tenha um transtorno mental. Quer dizer que você tem uma mente. Uma mente que, naquele momento, está irritada e tossindo do jeito que consegue.

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A vida não é um passeio lindo no parque.
A vida é um conjunto de situações bonitas, estranhas, assustadoras e horríveis, com mais ou menos sentido, e que - por melhor que seja - nunca vai ser fácil de se lidar. Não se passa ileso pela experiência de viver, sem ficar pelo menos um pouquinho fodido da cabeça .

Sofrer, chorar, perder o controle, estar ansioso, ficar paranóico, são só processos que a nossa mente encontrou naturalmente para lidar com essa parada dura que é viver.
E não só de vez em quando: é normal estar assim com mais frequência do que você imagina.
É assim pra todo mundo, pode acreditar.

Claro que existe uma linha separando a dificuldade de viver e a doença mental.
O problema é que ao transformar as dificuldades da vida em doença, vai ser impossível estar saudável.

Agora, quando a gente aceita que ter saúde mental inclui ter problemas,  sem banalizar a doença, fica muito mais fácil ajudar quem realmente tem um transtorno psíquico grave.

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À primeira vista, receber um diagnóstico é uma delícia. É um sinal de que não é você que está errado, é o seu cérebro que está dando pane.

Um diagnóstico é um alvará pra sofrer em paz.

É muito mais fácil lidar com uma doença do que com uma grande dúvida existencialista. Doença tem remédio, angústia só se atravessa com muito trabalho.
Mas, diria minha chefe, é importante você passar por isso.

Você pode estar angustiado e não estar doente. 
Você pode não estar doente e ainda assim melhorar muito fazendo terapia.
Você pode estar doente e seu tratamento incluir medicação.

E tudo bem! Não há nada de errado com nenhuma dessas categorias.
Seu sofrimento merece respeito simplesmente por existir.

Cuide de você. Se precisar de ajuda, estamos aqui.
O diagnóstico, por favor, deixa com a gente. 

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