10.1.17

Raiva, mimo e a realidade

Pergunte a alguém que explodiu de raiva o porque de ela é explodido e ela vai lhe dar uma lista.
Ela foi injustiçada. Ela faz de tudo pelos outros. Ninguém entende o que ela precisa.
Não havia outra opção senão explodir.

Pra si mesma, a pessoa que tem explosões de raiva é uma santa.

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Normalmente existe algum objeto, um motivo para a explosão acontecer.
"Essa merda de ônibus que nunca vem no horário."
"Nada funciona nesse país!"
"Eu faço tudo nessa casa e ninguém faz nada por mim!"

Mas a explosão de raiva esconde um problema muito mais profundo: a ilusão.

Uma pessoa com explosões frequentes de raiva vive na ilusão de que o mundo tem que satisfazer seus desejos, quaisquer que sejam. O ônibus tem que vir na hora, o país precisa funcionar como um relógio e todos devem antecipar e atender às suas necessidades.

Muito diferente do que o mundo é na vida real.

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Isso não é de nascença.
Se um bebê deseja algo e não é atendido, isso pode lhe gerar uma angústia profunda. Ele chora, ele esperneia, mas se adapta rapidamente. Salvo as necessidades básicas, ele logo se distrai com outra coisa e sofre sozinho com a sua frustração.

É só mais velha que a criança começa a fazer birra.
Depois de tomar consciência da realidade social, a criança já sabe se comparar com os outros - e já pode ver o que eles tem de diferente.

Se o outro tem algo de melhor que ele, surge uma profunda sensação de injustiça dentro de si.

Quando essa criança recebe suporte suficiente para aceitar a realidade dessa injustiça, ela cria em si mesma um mecanismo de enfrentamento de problemas que pode lhe ajudar a lutar contra essa realidade e, se possível, transformá-la.

O maior perigo é quando essa criança recebe a informação de que essa injustiça deve ser corrigida automaticamente, sem um esforço da sua parte.

Questão de mimo. Ai do mundo se não for do jeito que eu quero.
O porquinho que abra a porta, senão eu vou soprar e bufar até a casa desabar.
Explosão.

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Você não precisa ter ter tido uma infância de luxos para ser mimado.

A gente é capaz de se mimar sozinho. Fragilizado diante das dificuldades, é fácil desenvolver um diálogo interno que nos reafirme o tempo todo.
"Eu só me fodo. Ele devia saber que eu quero dormir essa hora e não ligar a TV nesse volume.", e grita com o marido.
"Eu tô num dia péssimo e esse filho da puta me corta no trânsito? Pessoa de merda!", e soca a buzina.

Raiva mal canalizada é birra.
É gritar no corredor do mercado porque a mamãe disse não pro nosso Kinder Ovo.
É querer vencer a vida pela manipulação.

Frustração por que não fomos mimados está na raiz de desde jogar o celular do namorado na parede porque ele não lhe dá atenção até a matar a ex mulher porque ela não lhe desejou mais.
É o mesmo padrão, e é muito mais sério do que parece.
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Veja, o problema não é a raiva em si.

A raiva é saudável e precisa existir. Só se transforma alguma coisa expressando raiva.
O problema é que a raiva, quando não baseada na realidade, é apenas destrutiva.
Raiva bem canalizada, gerando atitudes baseadas em como as coisas realmente são e não na fantasia, pode mudar o mundo.

Num mundo ideal, é claro que todos deveriam se entender, ter seus desejos atendidos e não sofrer frustração. Mas não é assim. O mundo é cru e cruel e não nos obedece.

Sobram duas opções: amadurecer e ver as coisas como são, cheias de falhas, tentando fazer proveito do que o mundo tem ao seu favor e enfrentando as dificuldades que ele se apresenta; ou se prender à expectativa ilusória de que tudo deve ser perfeito, explodindo de raiva toda vez que as coisas não saem do jeito planejado.

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Mas não é com ira que se cura uma pessoa irada.

Uma criança mimada só vai se divertir brincando quando aprende que não vai ser sempre a estrela do jogo, e que pode ser legal brincar mesmo quando a bola do gol não vai parar no seu pé.

A mudança vem de parar de se dizer para a criança interior que todos deveriam ser do jeito que ela quer, e investir pesado no carinho consigo mesmo.
Vem de começar a dizer para a criança interior que ela é plenamente capaz enfrentar a vida, mesmo quando ela não é a dos sonhos.
Que o mundo é assim mesmo, que é preciso esperar menos dele ou arregaçar as mangas e se dedicar.
Que ela é capaz de satisfazer os próprios desejos, e pode expressá-los com clareza para pedir ajuda, e aceitar essa ajuda do outro do jeito que ela vem, ainda que cheia de imperfeições.

Aprender a lidar com a realidade não ajuda só a evitar as explosões de raiva: permite conseguir conquistar os objetivos que se tem e a realmente solucionar os problemas que causaram a raiva em primeiro lugar.

Só consegue construir algo real quem mora no mundo real, com raiva bem direcionada e sem birra.

Um comentário:

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