16.2.17

Direto ao ponto

PROLIXO:  Facundo; loquaz; palavroso; verboso. Que fala ou escreve usando mais palavras do que o necessário. Que se expressa, falando ou escrevendo, através do uso excessivo de palavras; que não consegue resumir uma ideia ou encurtar um pensamento. Que se perde em explicações supérfluas. Definido como entediante; que se estende demoradamente; enfadonho. Que se desenvolve em demasia.

IRONIA: O dicionário precisar de onze expressões diferentes para definir a palavra "prolixo".

Se você sobreviveu à definição gigante, parabéns! Você vai sobreviver ao resto desse texto.

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Eu sei que muita gente deixa de ler o que eu escrevo por causa do tamanho dos textos.

Mas fazer o quê? O tempo que as coisas demoram pra ser ditas é... o tempo que elas demoram para ser ditas.

Eu até poderia ser mais curto e grosso e ir direto ao ponto de uma só vez, mas qual a graça de uma história se ela não dá algumas voltinhas? Aliás, dizem que todas as histórias já foram contadas, então... resta colorir o jeito de contar.

Sim, às vezes acontece de se passar por Goiânia tentando ir de Porto Alegre a Florianópolis, mas pode acontecer dessa viagem ser divertida.

A gente se perde? Às vezes.
Mas faz parte do charme.

A diferença do prolixo para o divertido é apenas o borogodó.

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Mas sabe o que dá raiva?

Essas pessoas que tem o dom de falar muito em poucas palavras. Pra mim, isso equivalente a projetar teias de aranha pela munheca - no poder que isso confere e na raridade de acontecer com um ser humano.

Não adianta, uma frase afiada sempre vai ser mais potente do que uma elocubração interminável.

Um "Yes, we can" do Obama pode até ser raso, mas inspira mais - e mais rápido - do que qualquer discurso de 12 horas do Fidel. Livros esclarecem mentes, mas slogans elegem presidentes e vendem cerveja.

Isto é, fazem o que realmente importa.

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Agora, não há uma criatura no planeta mais dotada para a prolixidade do que um pedinte.
Não posso nem julgar. É tanta rejeição, o tempo todo, que eles se preparam para contornar qualquer desconfiança com o discurso.

Apesar da testa franzida pedindo piedade, o tom de voz tende a ser sempre o mesmo: você sentiria mais emoção escutando o Google tradutor lendo a lista telefônica.

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O pedinte te chama no portão:
"Oi, com licença! Você poderia me dar um minutinho do seu tempo para eu lhe contar minha história?"

Dá vontade de falar logo que não tem dinheiro, mas
1 - ele não te dá tempo de falar nada;
2 - fica parecendo que você é preconceituoso por supor que ele vá pedir dinheiro, por mais certeza que você tenha que é isso que ele vai fazer;
3 - olha só como eu sou prolixo, fiz listinha numérica até pras desculpas pra não dar dinheiro pro pedinte.


Ele continua recitando o texto:
"É que eu trabalhava de carrinheiro, e eu peguei uma bactéria quando mexia no lixo e saíram essas feridas", mostrando várias feridas pelo corpo, "e eu preciso passar uma pomada que custa setenta e cinco reais. Estou aqui trabalhando, eu tiro mato do chão, eu cuido de grama, faço de tudo, minha esposa tá grávida, eu moro ali no bairro da Roça Morta, estou sempre aqui na região, e é com todo o respeito que eu venho aqui te pedir para, como um irmão mesmo, você escutar e poder me fazer um pequeno favor, que é o que eu te peço..."

(primeira pausa que ele faz pra respirar)

"... que é ir comigo ao supermercado e comprar um pacote de fralda."

Aí, entre a grana curta e a pressa pra pegar o ônibus, não dá pra responder outra coisa senão
"Desculpa, moço, vai ter que ficar pra outro dia".

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Cinco minutos depois passa outro pedinte, mais direto:
"Moço, dá um real pra eu comprar pinga?", com um um sorrisão.

Vantagens de ir direto ao ponto: é ele quem leva o um real que estava no seu bolso.
E leva rindo, porque na verdade ele tá indo é comprar fralda mesmo.

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