10.2.17

Passional

Bem de frente pra janela da sala onde eu trabalho fica uma árvore na rua. Uma quaresmeira.

Linda, toda cor-de-rosamente florida, a estampa perfeita pra uma roupa de verão da Frida Kahlo.

O ritual é o seguinte:
Uma pessoa passa apressada pela rua. Três passos depois da árvore, interrompe a caminhada e fica parado olhando o nada por uns segundinhos. Calcula a própria vergonha, faz a divisão pelo desejo e decide.

Volta os três passos. Tira o celular do bolso. Arruma o cabelo sem dar muito na cara. Estica o braço. Sorri. Tira a selfie.
Vai embora com a mesma pressa de antes.

Com a cara de que pelo menos o dia não passou em branco.
Uma árvore cor de rosa lhe deu um pouquinho de alegria tão raro que mereceu ser fotografado.

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Numa das primeiras vezes que eu voltei pra casa dos meus pais depois de mudar de cidade, estava colocando a chave na porta para entrar quando botei reparo na plantinha no canteiro ali do lado.

Senti um misto de surpresa e culpa. Eu tinha esquecido que ela existia. Eu oficialmente não era mais dali, já estava esquecendo dos detalhes do que já foi minha casa.

Aquela plantinha me viu crescer, caramba. Já saí e cheguei de casa milhões de vezes passando por ela, a maior testemunha de tudo o que eu já fiz. Parei um segundo pra olhar para ela. Fui sentindo um carinho tão grande, tão grande...

Pode me chamar de maluco, e eu juro que não tinha fumado maconha, mas a planta me respondeu.

Foi como se uma névoa branca saísse dela e me abraçasse. Nunca tinha visto nada similar antes, nunca vi nada similar depois.

Me emocionei como se tivesse ganho um abraço de um velho amigo.

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Algumas pessoas não se contentam com uma selfie com o pé de Frida Kahlo: param e arrancam um galho ou uma flor.
Querem levar pra casa um pedacinho da coisa bonita que encontraram.

Outras pessoas passam com o cachorro e ficam olhando para a árvore enquanto o bicho caga, pra fingir que não viram o cocô do bicho no chão e ir embora sem limpar.

Outras nem dão bola e foda-se se a árvore tá rosa ou verde ou cinza.

Do lado de dentro, eu só observo, com cara de planta.

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Desde o meu envolvimento emocional interespécies, peguei a mania de encostar nas plantas pelas quais eu passo.

Sabe quando cê cruza com um cachorro e precisa passar a mão nele como quem diz "Ooooi, fofura!"?
Eu digo "Oi, fofura!" pras plantas.

Dependendo da bicho-grilice do dia, se não tiver ninguém olhando dou até um abraço (se alguém me questionar isso pessoalmente vou negar).

É engraçado com uma plantinha pode deixar a gente feliz. Não é à toa que a gente dá flor pra quem a gente gosta, e pra quem tá doente.

Não sou muito de ter planta.
Não dou conta desse negócio de possuir um ser vivo, seja bicho ou planta ou lombiga. Não possuo nem a mim mesmo direito.

Mas se eu morrer encostando numa lagarta venenosa, cês já sabem. Foi uma morte passional.

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