22.2.17

Únicos

A maior prova da falta de humildade do ser humano é que a gente sempre acredita que é o primeiro a passar pelas mudanças que passa.  Não importa quantos trilhões de pessoas já tenham nascido, crescido, metido e batido as botas, a gente sempre acha que nosso ponto de vista é inédito.

Com todo mundo:
O adolescente que acha que é o primeiro a perceber que precisa se rebelar contra o mundo;
O jovem adulto que acha que é o primeiro a se frustrar com os sonhos que teve;
A pessoa de meia idade que acha que é pioneira na ideia de simplificar a vida e dar uma moderada nas expectativas em busca de menos estresse;
O idoso que acha que a geração seguinte é a primeira que não tem compasso moral.

Nada de novo debaixo do Sol: nossas histórias se repetem.
O que não quer dizer que não sejam dignas de ser vividas.

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A gente vive sob a ilusão de ser único.

Não que a gente não seja capaz de entender que o mundo é um formigueiro imenso, todo mundo com as suas frustrações. E, a bem da verdade, tentar se colocar no lugar de todo mundo que pode estar sofrendo ao mesmo tempo é uma experiência opressora.

Mas nós somos obviamente limitados: pra quem só consegue existir em um lugar por vez, só existe o lugar onde se está.

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Quem sabe ajudasse se a gente tirasse nossos bilhões de cabeças preocupadas com seus bilhões de si-mesmos e tentasse se perceber mais como colônia do que como seres individuais.

Um grande Ser Humano, o conjunto de bilhões de pessoinhas, tentando fazer sentido como um todo, cada pequeno insight contribuindo para o mundo inteiro.

Claro: pra quem é criado para ser o melhor aluno da turma, a pessoa que mais se destaca, que encontra uma pessoa específica que seja um grande amor na sua vida... Pode ser difícil sentir-se menos importante para ganhar na escala.

Mas esse movimento pode ser fundamental para aprendermos a ser mais livres, mais generosos e - quem sabe - mais felizes.

Mais entusiasmados, por sabermos nosso papel num grande sistema.
Menos autocríticos, por sabermos que não estamos trabalhando sozinhos.

Mais capazes de aceitar que somos bem comuns, bem pequenininhos, bem iguais uns aos outros.
E, por isso mesmo, únicos.

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