23.3.17

Exigências

Eu sou um romântico.

(Romântico: uma pessoa que, por aparência ou gosto, não se dá bem com encontros casuais mas ainda quer ter relações sexuais ou cafunés com frequência.)

Como meu cupido tem TDAH, tenho uma certa estrada de microromances ou histórias de amor platônicas de três dias. Todo mundo na minha idade tem.

Quando mais novo, eu reparava que, quando acontecia de me enrolar com algum cara mais próximo dos trinta anos, todos eles tinham uma característica em comum: qualquer mancada justificava o fim do papo. 

Os que não tinham essa característica eram os desesperados por um relacionamento, ainda mais assustadores.

Se eu ficava dois dias sem conversar? Fim de papo.
Se eu puxava assunto duas vezes no mesmo dia? Fim de jogo.
Se eu penteava a franja pra esquerda em dia de lua cheia? Inaceitável. Nunca mais.

Machucados por experiências desagradáveis, eles decidiam cortar o mal pela raiz logo que ele começasse a aparecer, não importa qual mal fosse.

Eles não me pareciam felizes. Eu prometi pra mim mesmo nunca ficar daquele jeito.

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Passaram-se os anos e ahora estoy aqui, igualzinho. 

Ter entrado em relacionamentos sérios e ter apanhado as surras que só um envolvimento profundo sabe dar me ensinou o quanto a parada é séria. Hoje eu sei o quanto um relacionamento torto machuca. 

Por Deus, até relacionamento bom machuca. Nessa altura da vida, estar sozinha é gostoso, e precisa ser muito bom pra compensar o risco de se envolver.

Assim, a altura mínima necessária pra embarcar na montanha russa enferrujada aqui foi ficando cada vez maior. Não que eu exija excelência, mas são muitos os critérios básicos:

Não precisa ser atleta, mas tem que fazer uma flexão de vez em quando.
Não precisa ser um acadêmico, mas não pode confundir mais com mas.
Não precisa ser um gênio, mas precisa me fazer rir.
Não precisa ser rico, mas precisa ser independente.
Não precisa ser um grude, mas precisa dar um sinalzinho de vida todos os dias.
Precisa ser safado, mas sem trair.

É exagero? Não acho. É um mínimo de segurança que um coração machucado pede para conseguir se envolver.

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Não sei se isso facilita as aproximações. Algumas qualidades (e defeitos!) só se conhecem bem depois do período de avaliação inicial.

Não adianta, o amor é a ciência do enrosco.
Se não se abrir uma chance para o enrosco, ainda que dolorido, não há chance do amor acontecer.

Talvez essas exigências sejam o jeito de um coração romântico dizer que não quer um relacionamento no momento. A gente sabe como é difícil achar alguém que caiba no molde que a gente coloca, e ainda assim escolhe não se envolver tão fácil, porque sabe que dar o coração sem cobrar nada em troca não deu certo. 

É coisa de quem nunca botou preço no amor que dava e agora tá querendo exigir fortuna. Saudável: nisso a gente empurra a possibilidade de encontrar uma pessoa mais pra frente, depois das feridas se curarem.

E aí, quem sabe, o amor apareça de fininho, sem expectativas, do jeito que ele gosta de aparecer. Completando exigências que nem sabia que se tinha e superando diferenças que pareciam inconciliáveis.

Pronto pra machucar tudo de novo - e a gente achar ótimo.

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