16.6.17

Aceitação

Se existe um mandamento bíblico fácil de seguir, é o de amar ao próximo como a si mesmo. Jesus foi marotíssimo na hora de soltar essa porque, se a gente conferir bem, não existe nenhum outro jeito de tratar as pessoas.

Só é possível tratar outra pessoa da mesma maneira que você se trata.

Enquanto alguém não ama a si mesmo, vai continuar tendo problemas para aceitar os outros do jeito que são.

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De todas as frases que eu falo no consultório, nenhuma gera tanta cara feia como "Será que é possível aceitar isso, em vez de tentar mudar?".

Para quem está pagando um profissional por hora para tentar mudar aquilo que lhe incomoda, a sugestão de deixar tudo como está é sentida como um bofetão na cara.

"Eu estou infeliz do jeito que eu estou", diz o paciente, "eu prefiro morrer do que viver assim."

E seguem calçando sapatos muito menores ou maiores do que o próprio pé e reclamando por não conseguir andar.

"E se você calçasse seu próprio número?", eu pergunto, antes do sapato ser atirado na minha cabeça.

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Normalmente a gente tenta mudar aquilo que a gente é criticado por ser.

Só esquecemos de conferir o motivo da crítica.
Pode ser que a crítica que você recebe por falar demais venha de alguém que se sente ameaçado diante de alguém comunicativo, ou que sua timidez seja criticada por gente que não sabe lidar com o próprio silêncio.

Mas em vez de falar "foda-se, migo lindo", damos ouvido à crítica e seguimos investindo toda a força que temos para ficamos calmos, quando somos agitados. Sutis, quando somos porretas. Pudicos, quando somos ousados.

Não conseguimos.
Já tentou botar um body de natação num cachorro, prender os braços dele e o jogar na água, pra ver se ele vira uma foca?

Por mais que a situação requeira isso dele, ele não vai conseguir nadar, não vai conseguir quicar uma bola de plástico no focinho e sua festa na piscina vai estar arruinada.

Hipoteticamente, claro.

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Quanto mais você se controla para ser o que não é, mais os outros te irritam.

A pessoa que não se controla como você é uma louca, a colega que não está de dieta (enquanto você briga com o seu corpo) é uma descontrolada.

Todas as pessoas passam a ser tão erradas quanto tentar fazer um cachorro morto dentro de um body de natação virar uma piñata pra animar uma festa na piscina que não está dando certo.

Você aponta o dedo, critica, se mói por dentro. Enche o saco da porra do próximo, como enche a si mesmo.

Pentelho.

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O problema é que tanta gente espera que aceitar a si mesmo seja igual a um comercial de Dove.
Não é.

Você não vai aceitar sua aparência por olhar no espelho e dizer "Eu sou bonito. Eu sou bonito. Eu sou bonito." até que a Fada da Aceitação apareça como a Loira do Banheiro e te abençoe com o dom de se achar belo.

A aceitação não vem de olhar a parte bonita do que se tem. Ninguém precisa aceitar uma coisa boa.

Aceitação vem de olhar para a parte difícil, suja e até então inaceitável de si mesmo e falar "Ok, é isso mesmo. Eu não sou do jeito que eu acho que deveria ser. Eu sou assim. Desisto."

É nessa hora que os ombros descem, relaxando da tensão acumulada por anos.
É nessa hora que você sente uma energia renovada, depois de tanto brigar para ser o que não era.

É nessa hora que você vê que aquilo que era tão importante se tornar não era tão importante assim.

Que, para ser aceito no portão onde só entram as pessoas com valor, você não precisava mudar. Só... aceitar o convite.

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É como teimar em insistir que a Terra é plana.

Depois de passar anos tentando encontrar o fim da Terra e ir parar sempre no mesmo lugar, a pessoa cansa, pára de brigar com o óbvio e... aceita que estava errada.

Agora ela pode dedicar sua vida a algo mais importante, como fundar um instituto que promova a segurança de cachorros em festas na piscina.

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O mais engraçado de tudo isso é que, depois de aceitar que você tem alguma característica que não gosta e parar de brigar consigo por causa dela... você muda.

Quando você deixa de fingir que uma situação não existe, você passa a lidar com o real dela. Passa a fazer o que pode, e isso basta.

Aí, só de sacanagem, você começa a sentir saudades de como era antes, e começa a achar bonito quem é do jeito que você tanto odiava.

E consegue amar o próximo, porque o aceita.
Porque, veja só, você se aceitou.

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